Desempenho da manufatura brasileira em relação a países asiáticos mostra uma expressiva falta de dinamismo
Sergio Alves
Política Industrial e Tecnológica (PIT) vem sendo um tema recorrente e prioritário no Brasil desde a década de 50. Fortalecer o processo de inovação no país é missão repetidamente manifesta pelos Governos, e tem havido, desde os anos 70, genuínos esforços nessa direção, alguns com sucesso, como nos exemplos emblemáticos da Embrapa, da tríade ITA/CTA/Embraer, do Cenpes/Petrobras e do CPqD. Mas, uma avaliação geral dos resultados alcançados é, infelizmente, decepcionante, e alguns desastrosos mesmos (Política de Informática). Os esforços me lembram o mito de Sísifo, o personagem da mitologia grega condenado pelos deuses a empurrar morro acima uma enorme pedra, que em seguida rola morro abaixo, e o obriga a repetir o trabalho incessantemente.
Cito, a título de ilustração, empresas nacionais ícones que fecharam ou foram vendidas a estrangeiros, tendo recebido substancial apoio governamental e subsídios financeiros, principalmente da FINEP e do BNDES: Villares, Eletrometal, Engesa, Mafersa, Gurgel, Cobra, Gradiente (tenta um prosaico renascer), Metal Leve, bem como nos exemplos mal sucedidos nos setores de construção naval, eletrônicos, telecomunicações, instrumentação e automação, consumo duráveis e microeletrônica (a Transit, na década de 70, antecedeu aos atuais sucessos internacionais de fabricantes de chips na Coreia, Taiwan e China).
Os raríssimos casos de sucesso tecnológico e empresarial (que receberam substancial apoio institucional e financeiro), como no caso da Biobras (Insulina), foi vendida à Novo Nordisk, sem qualquer centavo de ressarcimento aos cofres públicos. Tal fato seria inconcebível de ocorrer nos países asiáticos. Recentemente, a Votorantin Novos Negócios vendeu (R$ 300 milhões) para a multinacional Monsanto a Cana Vialis e a Alellyx (biotecnologia), após receber subsídios governamentais.
Mais trágico nesse processo é que a quase totalidade das empresas nacionais que foram “perdidas” é anterior ou contemporânea das atuais exitosas potências coreanas (Samsung, LG, Hyundai), e nos exemplos, mais recentes, das empresas chinesas situadas nos mais variados setores industriais (Huawey, ZTE, Lenovo, Haier, BYD, Chevry) que concorrem em pé de igualdade com as gigantes internacionais. Vale mencionar, igualmente, o destaque indiano no setor de software (Infosys, Tata, Wipro).
No contexto da presente discussão, vale destacar alguns fatores que colocaram o Brasil em desvantagem em relação aos asiáticos:
1) Falta de coesão governamental; falta de cultura de cooperação e coordenação da burocracia; mudança constante de direção; superposição de áreas de atuação; com as trocas de governo apaga-se o já feito ou trocam-se os nomes dos programas para justificar os egos dos novos entrantes (“Nova” Política Industrial e Tecnológica); recorrente risco dos órgãos governamentais não disporem das informações mais relevantes, e serem capturados ou adotarem decisões que beneficiem empresas ou grupos politicamente influentes;
2) A China e a Índia (e os países asiáticos de forma geral) crescem mais que o Brasil há quase trinta anos; ademais, a perda de terreno do Brasil no desenvolvimento industrial e tecnológico deve-se, também, a um conjunto de restrições de políticas econômicas adotadas, representando a “planilha de custos” para as empresas (inflação, infraestrutura, excesso tributário, juros elevados e câmbio sobrevalorizado);
3) O comodismo empresarial no país, ocasionado pela ajuda generosa do governo e sem exigir contrapartidas e limite temporal, acabou enfraquecendo o conjunto das empresas, uma vez que elas não foram forçadas a competir para ganhar competitividade; cabendo, ainda, salientar, que o poder político do setor privado no Brasil sempre foi maior que nos países asiáticos;
4) No Brasil, a empresa privada não tem tradição de investir em capacitação tecnológica e inovação, importando até pouca tecnologia; é alarmante o pequeno número de patentes registradas; e mesmo quando a empresa importa tecnologia (absorção), permanece indefinidamente atualizando as cópias, ficando o processo de desenvolvimento tecnológico bloqueado;
5) Sabe-se que a geração de inovação tecnológica está nas empresas e não nas universidades e centros de pesquisa, além de quase inexistir uma ligação entre as empresas privadas e a base de pesquisa local (institutos e universidades); ressalte-se que, nos últimos anos, de forma geral, o avanço no processo de capacitação tecnológica e de inovação no Brasil, andou para trás, o que torna claro que incentivar a capacitação tecnológica e a inovação nas empresas privadas é um dos grandes desafios do país – não é casual que multinacionais (GE, Siemens, Novartis, Samsung) tenham centros de pesquisas na China e na Índia e não exista nenhum exemplo no Brasil;
6) É fato que as multinacionais investem no Brasil visando quase exclusivamente o mercado interno, enquanto que na China, elas investem, visando, basicamente, às exportações. Além disso, são raríssimos os casos de sucesso de empresas brasileiras no setor exportador de manufaturas: Embraer, Marcopolo, Taurus e WEG. É conhecido o exemplo da Zona Franca de Manaus que, por seu formato, visa concentradamente o mercado interno, provocando distorção econômica permanente. Por outro lado, a predominância de multinacionais na ZFM torna o discurso de processo de inovação ocioso nos seus setores de atuação.
Como foi visto, o Brasil tem um longo e penoso trabalho a fazer, ou refazer. Não basta formular e implementar políticas corretas por certo tempo, elas devem ser perseguidas permanentemente. Esse processo iniciado há décadas, parece longe de tomar o rumo adequado, a despeito de nossa já longa maturidade industrial e de iniciativas recente animadoras, como a criação pelo setor público dos Fundos Setoriais, marco no incentivo ao processo de inovação pelo setor privado.
A lição dos países asiáticos é que suas políticas foram importantes para sustentar o crescimento acelerado e a participação crescente de produtos com maior conteúdo tecnológico nas suas pautas de exportação. Desde a ascensão do Japão, vindo depois a da Coreia, Cingapura, Taiwan e Malásia e agora com a entrada da China (manufaturas) e da Índia (serviços), o Brasil vem amargando crescente perda no mercado de manufatura e em capacitação tecnológica. A comparação do desempenho brasileiro em relação a esses países asiáticos mostra uma expressiva falta de dinamismo, contrastando com o fato de que até a década de 70, o Brasil estava à frente deles, exceto o Japão. É hora de olhar o futuro e corrigir nossos graves equívocos. Oremos.





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Ou o Brasil muda de postura ou será engolido e desaparecerá do cenário internacional e será mero exportador de matérias primas para esses países. Vamos ver o que nossas autoridades políticas escolherão para o nosso país.
Falta de visão a longo prazo: esse é o mal crônico que assola os políticos (e o povo brasileiro em si). Brasileiro é muito imediatista, e a cada quatro anos mudam-se as políticas e planos do “governo”, para satisfazer os egos daqueles que foram eleitos.
Faltam políticas de “ESTADO” para nosso país.
Tudo pode começar a mudar quando a Embraer criar uma divisão para fabricar um automóvel desenhado por brasileiros e com a tecnologia brasileira . Quando isso começar a fazer sucesso vai aparecer outras empresas brasileiras replicando essa ideia.
Poderemos um dia dirigir um Embraer, um Gerdau, um Votorantim, um CSN.
Chega de mandar minério para esses paises nos devolverem em forma de carros.
Será que não existe tecnologia suficiente para um carro brasileiro, se fabricamos foguetes , misseis, aviões satélites, etc?
Algumas observações
-China Índia e outros países tem custos de mão de obra baixíssimos. O Brasil ao contrário, onera a folha de pagamento. Tenho um exemplo doméstico: minha esposa custa 35% a mais para a empresa que o chefe dela baseado em Porto Rico ( mesmo ele ganhando mais que ela) como competir com custos assim???
-Gostaria de saber quais subsídios a Alellyx recebeu. Pelo que sei, pois conheço muito bem, a empresa houve empréstimo do BNDES no valor de R$40 milhões aproximadamente. O empréstimo tem garantias da Votorantim, portanto não é um subsídio. A Alellyx é uma empresa interessante. Ela foi criada por psquisadores para desenvolver melhoramento genético em espécies comercias ( cana, laranja, eucalipto, etc) A VVC ( Votorantim Venture Capital)antiga controladora da Alellyx é uma empresa especializada em investir em pequenos negócios com boas perspectivas e é obvio que o objetivo da companhia é investir e depois fazer lucro vendendo a companhia depois de um certo tempo.
Além de tudo as inúmeras agencias do governo tratam as empresas como criminosas, e agem com extrema burocracia.
Além de tudo a pouco incentivo a inovação e as próprias universidades tem uma certa resistência em atuar em conjunto com empresas ( obvio que há exceções) mas no geral quem quer criar um negócio a partir de uma idéia ou de um projeto sofre muito.
Tujdo isso passa por educação, em td os níveis, e facilidade de acesso a faculdades, até Públicas..é logo,ou o sonho de BRASIL grande vai morrer : Na baixa natalidade, por causa da miserabilidade do povão ; e o analfabetismo vai crescer, e as elite vão afundar junto .