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No Oriente Médio, um eixo silencioso é formado contra o Irã

In Conflitos, Geopolítica on 18/07/2010 by konner7 Marcado: ,

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Alexander Smoltczyk e Bernard Zand
UOL

Israel e os Estados árabes próximos ao Golfo Pérsico reconhecem uma ameaça comum: o regime de Teerã. Um diplomata da região sequer descartou apoio por parte dos Estados árabes a um ataque militar com o objetivo de acabar com as ambições nucleares do Irã.

A manhã começou há pouco no cais em Sharjah, que fica logo abaixo do Museu da Civilização Islâmica, e onde os pesados navios de madeira conhecidos com dhows estão sendo carregados. Trabalhadores paquistaneses levam blocos de motores, monitores de plasma e óleo mineral para os porões dos navios. Quando lhes perguntam para onde os dhows estão seguindo, eles dizem, tranquilamente: “Para o Irã”.

O comércio entre os Emirados Árabes Unidos e o seu vizinho que fica do outro lado do Estreito de Hormuz é uma ocorrência diária tão trivial que mal merece ser mencionada nas docas.

As mesmas famílias frequentemente possuem membros em ambas as costas do estreito. O relacionamento comercial entre elas cresceu no decorrer de gerações e são mais duradouras do que qualquer guerra ou embargo comercial.

É claro que o envio de blocos de motores para o cidade portuária iraniana de Bandar-e Lengeh não é proibido. Mas a movimentada atividade de importação e exportação nos cais de atracação dos dhows nos emirados de Sharjah, Dubai e Ras al-Khaimah demonstram como é difícil isolar Teerã.

“Incrivelmente honesto”

Isso torna ainda mais interessantes as palavras proferidas na terça-feira pelo embaixador dos Emirados Árabes Unidos nos Estados Unidos, Yousef Al Otaiba, em Aspen, no Estado do Colorado, que fica mais de 12.500 quilômetros a oeste do Golfo Pérsico. Otaiba participava de um fórum no Festival de Ideias do Instituto Aspen, e o clima era de tranquilidade, ou pelo menos era excessivamente relaxado para o padrão diplomático.

A discussão girava em torno do Oriente Médio. Quando lhe perguntaram se os Emirados Árabes Unidos apoiariam um possível ataque aéreo israelense contra o regime de Teerã, o embaixador Otaiba respondeu: “Um ataque militar contra o Irã, desfechado por qualquer país, seria um desastre, mas um Irã com uma arma nuclear seria um desastre ainda maior”.

Estas foram palavras incomumente honestas. “Um ataque militar sem dúvida provocaria uma retaliação. Haveria problemas, com populações protestando e se rebelando, e se mostrando extremamente insatisfeitas com o fato de uma força militar estrangeira atacar um país muçulmano”, disse Otaiba.

Mas, ele acrescentou: “Se você me perguntar se eu prefiro um quadro como este ou um Irã nuclear, a minha resposta será a mesma. Nós não podemos conviver com um Irã nuclear. Eu estou disposto a absorver tudo o que ocorrer em nome da segurança dos Emirados Árabes Unidos”.

A parlamentar norte-americana do Partido Democrata, Jane Harman, disse depois que nunca ouviu algo como isso de uma autoridade de um governo árabe. “Otaiba foi incrivelmente honesto”, acrescentou Harman.

“Apesar da natureza chocante das suas declarações, Otaiba estava apenas expressando, em um fórum público, a posição de muitos países árabes”, afirma o especialista em Oriente Médio Jeffrey Goldberg, que escreve para a revista “The Atlantic Monthly”, e que foi o moderador do painel de discussões em Aspen.

O fato de alguns políticos ocidentais não estarem familiarizados com essa posição tem a ver com a própria ignorância deles, e com a habilidade diplomática com a qual os menores Estados da região do Golfo Pérsico, em particular, foram capazes de ocultar até agora a sua oposição ao seu poderoso vizinho.

“Os judeus e os árabes estão brigando há cem anos. Mas os árabes e os persas brigam há mil anos”, argumenta Goldberg no site da “The Atlantic Monthly”.

Quase todos os vizinhos árabes mantêm uma relação hostil com a república islâmica. A Arábia Saudita suspeita que o Irã esteja atiçando a minoria xiita nas suas províncias orientais. Os emirados árabes acusam o Irã de ter ocupado três ilhas no Golfo Pérsico. O Egito não mantém relações diplomáticas regulares com o Irã desde que uma rua em Teerã foi batizada com o nome do assassino do ex-presidente egípcio Anwar el-Sadat.

O rei da Jordânia, Abdullah II, faz advertências quanto ao estabelecimento de um “crescente xiita” entre o Irã e o Líbano. E o Kuait, temendo os iranianos, instalou o sistema de defesa antimísseis norte-americano Patriot no segundo trimestre deste ano.

Estreitamente alinhados

Os governos árabes estão preocupados com um Irã forte, com o programa nuclear iraniano e com os discursos incendiários do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad. Eles compartilham essas preocupações com um outro governo do Oriente Médio – o governo de Israel.

Nunca antes os interesses estratégicos dos Estados árabes e judeu estiveram tão estreitamente alinhados. Enquanto especialistas em segurança europeus e norte-americanos caracterizam sistematicamente um ataque militar contra o Irã como “um último recurso”, autoridades árabes há muito compartilham as ideias do ministro do Exterior ultranacionalista de Israel, Avigdor Lieberman. “Se ninguém assumir a tarefa de bombardear o Irã, Israel terá que fazer isso”, disse a “Spiegel” o clérigo saudita Mohsen al-Awaji. “A agenda de Israel tem os seus limites”, afirmou al-Awaji, observando que Israel está preocupado principalmente em assegurar a sua existência nacional. “Mas a agenda do Irã é global”.

Às vezes essa agenda leva a ações que são tão absurdas quanto típicas. Em fevereiro, por exemplo, Teerã baixou uma proibição de aterrissagens contra todas as companhias aéreas que utilizarem o termo “Golfo Árabe” em vez de “Golfo Pérsico” nos seus programas de bordo.

Mas os países árabes estão exercendo uma delicada política de vai-e-vem. Os Emirados Árabes Unidos não têm condições de ofender publicamente o Irã, o que explica por que o embaixador Otaiba recebeu imediatamente a ordem de retornar para casa na última quarta-feira.

Essa cautela apenas oculta a profunda divisão existente entre os árabes e os persas. Apesar das suas manifestações públicas de indignação com as ações israelenses, como por exemplo o bloqueio militar à Faixa de Gaza, os países árabes da região continuam a seguir a sua rota pragmática. Em 12 de junho, o jornal “The Times” de Londres noticiou que a Arábia Saudita havia recentemente “conduzido testes para desativar as suas defesas aéreas a fim de permitir que jatos israelenses desfechassem um bombardeio contra as instalações nucleares do Irã” – na eventualidade de um ataque israelense contra a usina nuclear localizada em Bushehr. E, em março, agências de inteligência ocidentais anunciaram que havia sinais de negociações secretas entre Jerusalém e Riad no sentido de discutir essa possibilidade.

“Nós estamos alinhados com os Estados Unidos em todas as questões políticas no Oriente Médio”, disse em Aspen o embaixador Otaiba.

Pragmatismo e mudanças de alianças

“Os Emirados Árabes Unidos optaram por se alinhar ao campo daqueles que apoiaram a carta da nova resolução da Organização das Nações Unidas (ONU) de 9 de junho”, escreveu o filósofo francês Bernard-Henri Lévy, observando que isso se constituiu em “um verdadeiro golpe para o regime do Irã”. Para Lévy, a “union sacrée” de países muçulmanos contra o “inimigo sionista” é uma fantasia. Ele acrescentou que os países que se sentem ameaçados por Teerã têm agora a oportunidade de formar uma aliança de conveniência.

Além da Jordânia, os Emirados Árabes Unidos são o único país árabe que possui soldados servindo no Afeganistão – lutando ao lado dos Estados Unidos. Abu Dhabi, o mais rico dos sete emirados, estaria pressionando Dubai para manter sob cerrada vigilância os vários iranianos influentes que vivem lá.

No final de junho, o banco central dos Emirados Árabes Unidos congelou 41 contas bancárias, e descobriu-se que algumas delas estariam diretamente vinculadas à Guarda Revolucionária do Irã. As contas estariam sendo utilizadas para realizar transações vinculadas ao contrabando de materiais contidos na lista de embargo contra o Irã.

Antes disso, os Emirados Árabes Unidos anunciaram um controle mais rígido sobre os navios na zona de livre comércio de Dubai. “Forças de segurança interditaram vários navios suspeitos de transportar cargas ilícitas”, afirmou Hamad Al Kaabi, o representante permanente dos Emirados Árabes Unidos junto à Agência Internacional de Energia Atômica.

As nações árabes do Golfo Pérsico estão seguindo uma realpolitik nas suas relações com o Irã. Quando ficam em dúvida, elas pulam para o lado dos norte-americanos, mas preferem seguir a rota da negociação e do comércio. O líder de um emirado do Golfo Pérsico disse recentemente a uma delegação de políticos europeus: “A melhor forma de lidar com os iranianos é fazendo negócios com eles”.

Fonte: Bol/Uol

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8 Respostas to “No Oriente Médio, um eixo silencioso é formado contra o Irã”

  1. O Irã nuclear é uma ameaça a mundo, vejam o caso Amia, e particularmente aos seus vizinhos do Oriente Médio. Precisam ser contidos.

  2. A corte ao Irã
    Enviado por luisnassif, dom, 18/07/2010 – 12:19
    Por Rubem

    O simplismo dos analistas que previam o fracasso econômico e social do Governo Lula, previu também, antes e depois do histórico acordo com Irã e Turquia, o seu fracasso diplomático. O Brasil ficara internacionalmente isolado, já que até Russia e China puxaram a escada, apoiando as (nada)draconianas sanções anglo-franco-americanas.

    Eis a Russia. Aguardem a China.

    Do NYTimes:

    Diante de sanções americanas, Rússia oferece ajuda ao Irã

    Programa anunciado por Medvedev “convida” empresas russas a infringir proibições

    The New York Times | 18/07/2010 08:00

    O ministro de energia da Rússia anunciou nesta semana um amplo programa de cooperação com o Irã nos setores de petróleo, gás natural e petroquímica, que parece convidar empresas russas a infringir sanções adotadas pelo governo Obama há apenas duas semanas.

    As sanções foram criadas como meio suplementar de punir o Irã por se recusar a encerrar o seu programa nuclear sigiloso, depois que os Estados Unidos conseguiram convencer Rússia e China a concordarem com limitadas novas restrições comerciais estabelecidas em uma quarta resolução do Conselho de Segurança da ONU contra o país, aprovada em junho. Austrália, Canadá e Europa também decidiram aplicar medidas adicionais contra o Irã.

    Embora determinadas a evitar o tipo de investimento mencionado pelo ministro, as sanções americanas preveem permissões presidenciais para empresas de países que cooperem para desencorajar o Irã a obter arma nuclear.

    O Irã, embora um grande exportador de petróleo, importa milhares de litros de gasolina por dia para compensar a sua fraca capacidade de refino, limitada por anos de isolamento internacional.

    As sanções americanas impõem penalidades a entidades estrangeiras que vendam petróleo refinado para o Irã ou ajudem o país com sua capacidade de refino nacional, um foco que busca causar tribulações financeiras sobre o Corpo da Guarda da Revolução Islâmica, o grupo linha-dura que supervisiona o programa nuclear e de mísseis do país, além de controlar grande parte da sua indústria petrolífera.

    O presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, expressou oposição à adicionar quaisquer sanções ao país além daquelas impostas pelas Nações Unidas e o Ministério das Relações Exteriores advertiu os Estados Unidos contra a tentativa de punir empresas russas por causa das novas sanções unilaterais.

    Na quarta-feira, o ministro da energia da Rússia adotou uma posição mais aberta contra as sanções americanas ao anunciar os planos para uma cooperação mais estreita entre os interesses petrolíferos russos e iranianos.

    Mas não ficou imediatamente claro como qualquer ação será tomada.

    O comunicado russo sugeriu que um grupo de trabalho será formado para identificar áreas de cooperação mais profunda nos setores do petróleo e petroquímica, propondo um estudo para a criação de uma companhia de petróleo russo-iraniana e um banco binacional para financiar esses projetos.

    A declaração do Irã sugeriu que o petróleo será comercializado em bolsas de mercadorias russas.

    Por Andrew E. Kramer

  3. E a mesma estória das armas de destruição em massa do Iraque. Vão acabar com o Irã e depois dizer “É, não encontramos nada” só petróleo e muito petróleo.

  4. Francisco, sem falar das grandes reservas de lítio e outros minerais no Afeganistão…

  5. Com o irã será bem diferente do iraque e afeganistão, dessa vez a coisa é diferente o irã tem armado misseis com armas quimicas e biologicas, e uma guerra naquela região vai envolver russia e china de qualquer jeito, por que a russia tem cidadãos trabalhando nas usinas nucleares do irã, a desculpa pra russia invadir a georgia foi pra defender seus cidadãos que lá vivem, se o irã for atacado a russia irá dizer o mesmo, estará defendendo seus cidadãos que vivem no irã, a china ja ta irada com os eua pelo apoio que os eua dão a taiwan e tem negocios bilhonarios e precisa do irã pra manter seu crescimento, os eua e israel estão entrando num ninho de cobras .
    A coisa é complicada, dessa vez não será tão simples como foi no passado com iraque e afeganistão, e a guerra vai ser pesada e vai envolver grandes potencias em lados opostos.
    E eua e israel não vão poder contar com o DEUS do sabado para ajuda-los, pois o mesmo DEUS que disse: lembra-te do sabado, tbm disse: não matarás.

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