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EUA correm risco de fracassar no Afeganistão e no Iraque

In Conflitos, Defesa, Geopolítica, História, Opinião on 21/07/2010 by konner7 Marcado: , , , ,

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Ullrich Fichtner
UOL

Barack Obama está em uma situação extremamente difícil: se as guerras travadas pelos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque fracassarem, o fiasco eclipsará qualquer realização do presidente no campo doméstico. O fim do papel de liderança mundial exercidos pelos Estados Unidos teve início há muito tempo. Será que a conferência do Afeganistão poderá representar um progresso?

I. Há um nome que está sendo mencionado com frequência no decorrer do debate a respeito das guerras travadas pelos Estados Unidos. Um nome que não pressagia boas coisas para o presidente norte-americano Barack Obama: Lyndon B. Johnson, o 36º presidente dos Estados Unidos. Johnson, que, como Obama, também era democrata e um reformista enérgico, acabou fracassando devido a uma guerra no exterior que foi travada por tropas dos Estados Unidos. A Guerra do Vietnã impediu que Johnson fosse lembrado como um dos mais destacados presidentes dos Estados Unidos do século 20.

Johnson atacou problemas que ninguém antes dele ousou abordar – nem mesmo o seu predecessor, John Fitzgerald Kennedy. O conjunto de programas domésticos conhecidos coletivamente como a “Great Society” está associado ao nome dele, e foi Johnson que combateu corajosamente a discriminação racial nos Estados Unidos, declarou guerra à pobreza, recebeu de braços abertos imigrantes não europeus que vieram para os Estados Unidos e, com os seus programas Medicare e Medicaid, criou as bases para uma nova política de sistema de saúde sobre as quais Obama pode agora construir o seu próprio plano.

Mas essas grandes realizações praticamente desapareceram, tendo ficado obscurecidas pelos erros de cálculo de Johnson na Indochina. A partir de 1966, quando a campanha dos Estados Unidos no Vietnã aproximava-se do seu apogeu, a expressão “lacuna de credibilidade” tornou-se popular nos Estados Unidos. A política externa de Johnson acabou com o sucesso das suas políticas internas. Ele foi um presidente de um período de guerra, um papel que os norte-americanos mostraram-se incapazes de conciliar com a sua imagem de um pacificador na conjuntura interna.

Obama, ganhador do Prêmio Nobel da Paz, se encontrará em breve em uma situação bastante similar. E quando isso ocorrer, toda a atual ordem mundial provavelmente poderá tornar-se o foco de um debate.

Como o presidente lida com conflitos armados

II. O Iraque nunca foi o Vietnã, e o Afeganistão jamais o será. O problema com as comparações extremamente precipitadas que são feitas pelos críticos é que elas se baseiam em uma visão superficial dos fatos históricos. No ápice da Guerra do Vietnã, havia 543 mil soldados norte-americanos em ação, ou bem mais do que o dobro do número total de soldados que atualmente estão combatendo no Iraque e no Afeganistão. Mais de 58 mil soldados dos Estados Unidos haviam morrido no Vietnã quando a guerra terminou em 1975. Em 1968, o número de baixas norte-americanas chegou a mil por semana, e, ao todo, o conflito custou a vida de pelo menos três milhões de vietnamitas e de bem mais de meio milhão de cambojanos e laocianos. Quem conhecer esses números provavelmente evitará fazer comparações entre a situação de hoje e a Guerra do Vietnã.

Entretanto, existem similaridades nas maneiras como esses dois presidentes norte-americanos lidaram politicamente com os seus respectivos conflitos armados. Assim como os seus predecessores Lyndon Johnson e Richard Nixon, Obama afirmou que o seu objetivo era devolver o mais rapidamente possível o controle dos países atualmente ocupados pelos Estados Unidos aos governos nacionais dessas nações.

Obama prometeu retirar todas as tropas do Iraque até o final de 2011, e garantiu que começaria a trazer para casa os soldados que estão no Afeganistão em julho de 2011. Mas nada disso acontecerá. Só em novembro será concluído o envio dos 30 mil soldados adicionais que estão seguindo para o Afeganistão, o que fará com que o contingente de militares norte-americanos no país chegue a mais de 100 mil soldados. Se Obama cumprir a sua promessa de começar a retirar as tropas do Afeganistão em julho de 2011, esses novos soldados contarão com apenas nove meses para reverter a precária situação na região do Hindu Kush. Porém, a julgar pela situação atual naquela região, essa é uma missão impossível.

Ganhando batalhas, perdendo a guerra

O estado calamitoso do esforço de guerra no Afeganistão tem ficado particularmente evidente nas últimas semanas. Em Marjah, uma pequena cidade no sul do Afeganistão, milhares de soldados britânicos e norte-americanos conquistaram uma vitória cara e extremamente difícil contra o Taleban. Mas, quando os fatos são analisados de forma mais minuciosa, conclui-se que aquilo não foi uma vitória. Atualmente, após a grande ofensiva das forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Marjah não está livre do Taleban, e tampouco pacificada. As forças da Otan não controlam de fato a cidade, porque o inimigo, fragmentado em pequenos grupos, está retornando gradualmente para recuperá-la. Os esforços das tropas lideradas pelos Estados Unidos parecem ser quase desesperados, e eles são emblemáticos daquilo que está ocorrendo no Afeganistão há quase nove anos.

Os norte-americanos e os seus aliados estão vencendo quase todas as batalhas, mas estão perdendo a guerra. Nesta semana, a plateia global está sendo preparada para uma grande, e supostamente decisiva, ofensiva contra Kandahar, a morada do Taleban afegão. A retórica correspondente faz lembrar os relatórios de campo emitidos pelos generais fracassados do Vietnã. E não é necessário um oráculo para prever que uma enxurrada de más notícias virá em breve de Kandahar, comprovando, mais uma vez, que esta guerra – seja ela chamada de batalha contra o terrorismo, operação de contra-insurgência ou missão para a implementação da paz – não pode ser vencida.

A maioria do povo afegão, juntamente com o seu governo corrupto e incompetente em Cabul, não parece mais ter interesse no sucesso dos norte-americanos e dos seus aliados. Na verdade, atualmente parece que tudo o que os afegãos desejariam é que todos os estrangeiros desaparecessem do seu território e voltassem para o lugar de onde vieram, mesmo que o custo disso fosse um novo governo taleban.

A perspectiva de guerra civil nunca é remota

III. O Iraque foi um caso diferente desde o início. Saddam Hussein pode ter sido um ditador brutal, mas da sua maneira própria, o seu regime trouxe modernização ao país, uma modernização da qual a sociedade iraquiana ainda se beneficia. Saddam Hussein usou a religião quando ela atendeu aos seus objetivos, mas em última análise ele era um líder secular que admirava engenheiros, sentia entusiasmo pela ciência e tinha um conceito do papel social das mulheres que pode ser considerado avançado para os padrões do Oriente Médio.

Por esse motivo, a guerra norte-americana no Iraque foi muito mais fácil, ainda que ela tenha gerado uma longa série de notícias devastadoras, especialmente em 2006 e 2007. A sociedade iraquiana – em um grande contraste com a sociedade afegã – é preponderantemente urbana, os níveis médios de escolaridade são significativamente mais elevados e a infraestrutura inteira do país pode ser considerada moderna quando comparada à do Afeganistão. Este é o motivo pelo qual o Iraque sempre foi imune a todas as tentativas de “talebanização”.

Apesar de todas as diferenças étnicas e religiosas, e a despeito do problema curdo e das disputas em torno das exportações de petróleo, no Iraque sempre foi possível encontrar por toda parte interlocutores racionais com influência suficiente para negociarem algum tipo de solução política sustentável. Os iraquianos elegeram três vezes um parlamento desde a invasão norte-americana na primavera de 2003, e toda eleição foi relativamente democrática. Quando Obama tomou posse, o Iraque, sob o governo do primeiro-ministro Nouri al-Maliki, estava trilhando o caminho certo, embora esse fosse um caminho difícil e cheio de obstáculos perigosos. Mas era, de qualquer forma, um caminho, e os ataques, por mais numerosos que fossem, não impediriam o povo iraquiano de discutir o futuro do país usando principalmente palavras, em vez de armas. Nas últimas semanas, no entanto, essa conclusão passou a perder a sua validade.

O retorno da liderança autoritária

Agora que Obama está mantendo o seu plano de retirar todas as tropas do Iraque até o final de 2011, os sectários e os terroristas do país enxergam mais uma vez uma oportunidade. E, o mais preocupante é que os líderes iraquianos estão subitamente se lembrando de antigos e nefastos hábitos. O estilo autoritário de liderança, suavizado durante vários anos pelo desejo de não colocar em risco a unidade nacional do país, está retornando ao cenário.

O primeiro-ministro Maliki – cujo partido ganhou, na eleição de março, menos cadeiras no parlamento do que o seu maior adversário, Ayad Allawi – agarrou-se ao seu cargo com uma obstinação inquietante e, durante meses, impediu a formação de um novo governo. Muitos compromissos e acordos que foram alcançados com um esforço doloroso no decorrer dos anos, em parte como resultado da presença ameaçadora dos soldados norte-americanas – dos quais ainda há 90 mil atualmente no Iraque –, estão repentinamente se tornando menos válidos. Tudo isso pode ser visto como uma consequência da política externa imprudente de Obama, que muitas vezes comporta-se como um idealista que possui pouca compreensão da realidade.

Por ora, a perspectiva de guerra civil jamais é muito remota na vida cotidiana das populações do Iraque e do Afeganistão de hoje. Assim, se Obama desejar impedir que todos os ganhos obtidos no Iraque se evaporem da noite para o dia, ele terá que rever a sua decisão de retirada de tropas, o que resultará indubitavelmente em uma perda de autoridade para o presidente. Assim como a Alemanha após a Segunda Guerra Mundial, o Iraque necessitará da presença estabilizadora de tropas norte-americanas até que a situação mude, e o governo dos Estados Unidos acabará percebendo que isso poderá ser útil para manter uma certa presença ameaçadora contra o Irã, país vizinho do Iraque.

Perspectivas consistentemente sombrias para o Afeganistão

IV. Como está a situação em Bagdá e em Cabul em 2010? Essa questão é quase mais difícil de ser respondida no caso do Iraque do que no do Afeganistão, já que as perspectivas para o Afeganistão são consistentemente sombrias. O ganhos territoriais da coalizão internacional naquele país sempre se mostraram transitórias, e grandes áreas do país estão sob o controle real de vários grupos, clãs e líderes tribais fragmentados, sendo que todos eles são amalgamados no debate ocidental e rotulados como membros do Taleban. Na verdade, a sociedade afegã, e isso se aplica também aos seus inimigos, se constitui em um emaranhado impressionantemente complexo de lealdades culturais, étnicas, religiosas, geográficas e tribais, que os estrangeiros não podem esperar jamais desfazer de uma maneira razoavelmente satisfatória.

A sociedade afegã é também influenciada pelo Paquistão, pelo Irã, pela Rússia e até pela China. Para entender isso, é preciso compreender as influências uzbeques, as conexões tadjiques e as antigas redes russas. É necessário conhecer os liames de todo esse emaranhado formado durante 30 anos de terras, todas as histórias de lealdade e traição, bem como as lendas dos mujahedeen. Aqueles que não sabem quem é o genro de quem, ou que líder tribal está atualmente comprando com propinas que chefe de polícia estarão sempre diante de um mistério insolúvel.

Os Estados Unidos prestes a transferirem o foco de atenções para o Paquistão

Uma sociedade como essa não pode ser transformada em um Estado, pelo menos não segundo os critérios e métodos norte-americanos. Há algum tempo o atual embaixador norte-americano no Afeganistão, Karl Eikenberry, não se entende com o governo afegão no que se refere a várias questões. O enviado especial dos Estados Unidos, Richard Holbrooke, já é tido como um inimigo declarado do presidente Hamid Karzai, cuja incompetência, após oito anos, é atualmente considerada um fato comprovado. Está claro que a diplomacia norte-americana se encontra prestes a abandonar o Afeganistão para concentrar os seus esforços no vizinho Paquistão, que, como potência nuclear e abrigo real dos terroristas talebans, vem há algum tempo atraindo mais atenção do que o Afeganistão.

Tentar fazer previsões válidas sobre campanhas militares é uma tarefa difícil. O iminente aumento do número de tropas no Afeganistão, como aquele que foi empregado no Iraque em 2007, poderia modificar o presente quadro. Muita gente viu a nomeação do general de quatro estrelas David Petraeus para o cargo de comandante das forças militares no Afeganistão como um bom sinal.

No entanto, as experiências de Petraeus no Iraque, onde as suas decisões inteligentes contribuíram para reverter a situação do conflito em 2008, poderão se revelar um problema no Afeganistão. Até mesmo Petraeus afirma repetidamente que o Iraque não é o Afeganistão. Mas, mesmo assim, o general Petraeus continua sendo o general Petraeus, de forma que é de se temer que ele tente aplicar no Afeganistão os mesmos métodos que se mostraram efetivos no Iraque.

Não é difícil prever que esses métodos não surtirão efeito no Afeganistão. A virada da situação no Iraque se materializou em grande parte porque os xeques sunitas mudaram de lado e formaram alianças com os norte-americanos, primeiro na província de Anbar, e depois em todo o país, e não porque mais soldados norte-americanos foram enviados para o Iraque. Mas não existem potenciais aliados similares no Afeganistão, a menos que se acredite na ideia audaciosa de que Petraeus e os Estados Unidos um dia negociarão direta e abertamente com o Taleban.

Karzai deseja fazer isso, e de fato vem fazendo tal coisa secretamente há algum tempo. Sob o ponto de vista do governo em Cabul, os Estados Unidos, com a sua truculenta estratégia anti-Taleban, estão se transformando rapidamente em um obstáculo no caminho que conduz à paz interna. Karzai vem trabalhando há algum tempo contra os norte-americanos, conforme ele demonstrou recentemente com a sua estridente exoneração do ministro do Interior, Hanif Atmar, que era tido no Ocidente como um dos poucos membros competentes do gabinete do primeiro-ministro em Cabul. E, ainda que atualmente isto pareça ser um sonho maluco, no fim das contas, quando Karzai e o seu clã concluíssem que nada mais teriam a perder, ele poderia até mesmo se apresentar como o líder da resistência antiocidental no país, desfechando um golpe final e absurdo contra a atolada missão da Força Internacional de Assistência para Segurança (ISAF, na sigla em Inglês).

Os problemas no Iraque são relativamente pequenos quando comparados àqueles no Afeganistão, ou pelo menos era essa a impressão que se tinha até recentemente. Ainda que as notícias recorrentes de ataques terroristas devastadores no país tenham abalado o mundo, a situação da segurança melhorou notavelmente, em parte como resultado da bem sucedida criação de um exército nacional e de uma força policial.

A zona sul de Bagdá, que há apenas três anos era uma área de guerra letal na qual milícias, franco-atiradores e soldados norte-americanos travavam combates entre si em um sinistro combate de casa em casa, atualmente tem a aparência de um bairro civil comum. A vida cotidiana retornou a locais de nomes famosos – Falluja, Ramadi, Najaf –, com mercados, festivais de rua e crianças circulando em uniformes escolares. Mas agora uma crise perigosa começa a se desenvolver no país.

A recusa do primeiro-ministro Maliki em admitir que perdeu a eleição gerou um impasse político, ou talvez até mesmo a um vácuo de poder. Milícias étnicas estão novamente atacando membros de outros grupos étnicos, mas desta vez essas milícias não estão sendo controladas por forças estrangeiras, conforme ocorria antigamente, nem por forças terroristas ou pelos serviços de inteligência iranianos. Em vez disso, um novo conflito interno parece estar em gestação no Iraque. As suas causas são internas, e grande parte da culpa pode ser atribuída a uma elaboração incompetente de políticas para o país.

Uma disputa em andamento em torno dos lucros com o petróleo

É importante observar que os iraquianos estão há anos se desentendendo quando a uma lei nacional para o petróleo. Apesar de todas as negociações, e não obstante todas as pressões no exterior e no próprio pais, os iraquianos ainda não conseguiram encontrar um método justo de distribuição da sua riqueza mineral, que poderia ser uma chave para a paz no Iraque.
A incapacidade de chegar a um acordo é um problema que está vinculado a outras incontáveis inadequações daqueles que estão no poder e que, por exemplo, têm se mostrado incapazes de cumprir a tarefa de fornecer energia elétrica e água ao Iraque, bem como a de satisfazer várias outras necessidades básicas da população. O povo está ficando cansado dos jogos políticos complicados em Bagdá e começa a se afastar de líderes que estão claramente mais interessados no seu próprio bem estar do que no bem estar do país.

É um sinal alarmante o fato de esses relatos estarem sendo feitos agora por amigos do Iraque que conhecem bem o país, como o ex-embaixador dos Estados Unidos Ryan Crocker, que adverte que algumas das mais recentes conquistas no Iraque poderão ir por água abaixo. É como se a esperança de que todos os iraquianos pudessem viver juntos em paz estivesse novamente se desfazendo, exatamente no momento histórico em que os Estados Unidos decidiram retirar completamente as suas tropas do país. Nada de bom pode resultar disso.

No Afeganistão, as opções são radicais e contraditórias

V. Ao se analisar os dados com clareza, percebe-se que Obama não conta com muitas opções no que se refere ao Iraque. Se, como comandante-em-chefe das forças armadas dos Estados Unidos, ele retirar de fato todas as tropas, um fracasso da experiência iraquiana seria mais do que provável, uma conclusão à qual o governo norte-americano também chegará cedo ou tarde. Somente com uma presença norte-americana armada e estabilizadora para apoiá-las as forças moderadas em Bagdá serão capazes de dar continuidade ao seu projeto, e seria um erro histórico privar essas forças de tal oportunidade.

A situação é diferente no Afeganistão. Lá as opções são radicais e contraditórias, e as consequências de se escolher qualquer opção são de difícil avaliação. A opção preferida pela maioria dos europeus consiste em uma retirada rápida de todas as tropas e poderia ser descrita como uma estratégia do tipo “depois-de-nós-vem-a-inundação”. Obama, também, está sob pressão crescente para dar um fim rápido a essa operação militar sem perspectivas de sucesso no Afeganistão e deixar os recalcitrantes afegãos abandonados à própria sorte.

O Canadá, a Holanda, a Polônia, a Austrália e vários outros países estão retirando as suas tropas ou questionando o seu compromisso para com esse esforço de guerra, a coalizão ISAF está desmoronando, e Obama tem diante de si duas opções: dar continuidade a esta operação de guerra norte-americana e britânica cada vez mais cara ou por um término à missão sem uma vitória. Ambas as opções não são exatamente tentadoras, e é por esse motivo que é concebível e desejável fazer um último grande esforço, que poderia resultar em uma solução mais construtiva.

Atualmente, fatores do “Great Game” têm um papel importante

Antes de ser obrigado a renunciar em circunstâncias desonrosas, o ex-comandantes da ISAF, Stanley McChrystal, disse que a questão crucial não é acabar com a guerra rapidamente, mas encerrá-la de forma apropriada – uma declaração banal, mas verdadeira. Se nesta guerra forem implementadas outras medidas, tais medidas terão que ir além do envolvimento militar de uma quantidade cada vez maior de tropas combatentes dos Estados Unidos. No Afeganistão, todos os fatores que deram forma ao histórico “Great Game” (“Grande Jogo”) do século 19 entre o Império Britânico e os russos ainda desempenham um papel importante nos dias de hoje. O conflito pode ser resolvido em algumas regiões, mas não unicamente dentro das fronteiras do Afeganistão.

Se Obama for realmente o líder mundial messiânico que todos acreditaram que fosse logo após a sua eleição, ele deverá conseguir fazer com que todas as partes se reúnam mais uma vez em uma grande conferência sobre o Afeganistão, que incluiria potência como Rússia, China, Paquistão e Irã, mas também o Taleban – de alguma forma – e alguns chefes tribais afegãos. Ao se considerar a situação caótica do país, seria necessária pelo menos uma conferência dessa magnitude para que se chegasse a soluções viáveis para aquilo que, caso contrário, será um desastre certo.

Se esse tipo de esforço diplomático derradeiro não se materializar, e se o atual conflito, uma guerra aparentemente sem propósito, simplesmente continuar, será fácil prever o futuro do Afeganistão. Os aliados dos Estados Unidos mais cedo ou mais tarde abandonarão esse barco, primeiro gradualmente, e depois mais rapidamente, e até as Nações Unidas acabarão por se retirar, até mesmo para proteger os seus funcionários. O país mergulhará em um caos que terminará com uma ressurreição do Taleban como o seu salvador. A história voltará ao seu ponto de partida, todos os sacrifícios e esforços terão sido em vão, e o Afeganistão retornará ao estágio em que se encontrava em 2001.

Um fim do atual papel dos Estados Unidos no mundo

VI. Mais coisas estão sendo em jogo no Iraque e no Afeganistão do que a simples estabilização de ambos os países e das suas respectivas sociedades.

Os conflitos giram em torno de regiões, esferas de influência política e uma espécie de fim do atual papel dos Estados Unidos no mundo. É bem possível que os historiadores um dia vejam o início do século 21 como sendo o período em que os Estados Unidos perderam o seu status de superpotência nos campos de batalha do Iraque e do Afeganistão para a China, que atualmente exerce um “poder suave” em todo o mundo. Um poder que muitos acreditam que já supera o dos Estados Unidos. É também bastante possível que Barack Obama passe para a história como o presidente que finalmente selou o declínio do domínio dos Estados Unidos.

Mas durante estes meses e anos, que têm sido também intensamente marcados por uma crise econômica histórica de dimensões globais, os Estados Unidos, e o seu papel no mundo, não são a única coisa que está em jogo. As guerras que estão sendo travadas no Iraque e no Afeganistão podem ser primariamente guerras norte-americanas, mas, no decorrer delas, três grandes atores da política global estão experimentando a sua hora da verdade. A Organização das Nações Unidas (ONU), a Otan e a União Europeia correm o risco de se encontrarem entre os danos colaterais das atuais guerras, especialmente a do Afeganistão.

A ausência da União Européia

No Afeganistão, todas as três instituições demonstraram que, como forças de intervenção em crises, elas são pouco mais do que dispendiosos fracassos totais. A ONU pode ter implementado programas bem sucedidos de vacinação e educação no Afeganistão e melhorado o sistema de saúde em um ou outro local no país, algo que sem dúvida não pode ser menosprezado. Mas ela fracassou completamente no seu autoproclamado papel de especialista em construção de nações. No decorrer da operação da ISAF, a Otan mostrou ser um grupo de exércitos individuais que estão sempre se desentendendo, cada um agindo por conta própria, incapaz de ganhar a guerra e de estabelecer a paz. Afinal de contas, os europeus estiveram ausentes na condição de uma União Europeia, e os países europeus individuais que enviaram tropas como parte da ISAF quase que acabaram lutando mais energicamente para defenderem os seus próprios interesses – da mesma forma que fazem em Bruxelas – do que para combaterem os inimigos de um novo Afeganistão.

Essas conclusões conduzem a uma constatação pessimista: no Afeganistão, a esperança de que existem soluções multilaterais razoáveis para os problemas centrais do mundo está atualmente se desvanecendo. De qualquer forma, a perspectiva de que as atuais agências da comunidade internacional fracassarão na sua autoimposta tarefa suprema, o Afeganistão, não pode deixar de ter consequências para o mundo.

Uma consequência positiva poderia ser que partes envolvidas analisariam o seu fracasso conjunto e encontrariam as suas maneiras de promover reformas substanciais que poderiam envolver a reestruturação da Otan, da ONU e da União Europeia. Mas ninguém acredita que isso acontecerá. As consequências negativas são mais prováveis. Os membros da coalizão internacional não encontraram um denominador comum no Afeganistão, e, na verdade, afastaram-se mais uns dos outros. As divisões estão aumentando, sobremaneira entre os Estados Unidos e a Europa, mas também, em escala menor, entre vários países europeus. A Alemanha, em particular, tornou-se isolada e até exposta ao escárnio internacional devido ao papel especial complicado que exerce nessa missão militar.

Se a missão no Afeganistão acabar de forma tão medíocre como atualmente parece que poderá acabar – com os membros da ISAF simplesmente se retirando, um a um, sem proporcionar ao país e à região nenhuma perspectiva positiva –, isso seria uma perda total em termos de política global. É por isso que os líderes mundiais relevantes têm que encontrar agora uma maneira de cooperarem entre si – não daquela forma usual e rotineira, mas com toda a seriedade e com pleno conhecimento dessa situação dramática – com o objetivo de dar início ao trabalho para encontrar uma solução razoável e sustentável.

Uma conferência de grande magnitude sobre o Afeganistão, uma conferência que acabasse com o catastrófico status quo e incluísse de fato todos os protagonistas, incluindo até mesmo aqueles que são vistos com suspeita, na mesa de negociação, é atualmente algo extremamente necessário.

Fonte:Bol/Uol

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12 Respostas to “EUA correm risco de fracassar no Afeganistão e no Iraque”

  1. Correm o risco?
    Achei que já tinham fracassado, só queriam era diminuir o prejuízo…

  2. Bem, de forma resumida…

    Se quebrou uma regra básica: Aquele que invadiu (seja lá qual for o motivo), não tem o direito de pacificar e reconstruir por motivos mais do que óbvios. Seria apenas simples roubo e espólio a partir de oportunidades conjuntivas.

    Quer pacificar mesmo estas regiões?

    Dê a oportunidade para outros países não envolvidos no conflito (direta ou indiretamente), via Assembléia Geral (esquece o CS – “lacuna de credibilidade”) para pacificar e reconstruir a infraestrutura básica de Estado e governo.

    Como fazer isto, se o grupo dominante do capital americano (e de quebra, acabou arrastando outros grupos ocidentais internacionais) fez a aposta cega em contratos de segurança, reconstrução e exploração de recursos energéticos destes países e agora se vê enrascada e não aceita a quebra da banca (cegueira tola… se continuar com este objetivo, a banca QUEBRA MAIS RÁPIDO)?

    A pergunta que vale trilhões de dólares…

  3. Só espero que não mandem a conta do pileque do petróleo para nós, como fizeram e estão fazendo no Haiti (cadê o “din din” para a reconstrução?).

    Responsabilidade pelos próprios atos é importante não só para o indivíduo, mas também imprescindível para um país.

    Façam uma oferta (“não existe almoço grátis”) pelo serviço de pacificação e reconstrução das estruturas básicas de sociedade, governo e Estado e peçam ao Brasil para organizar (com o respeito as regras do direito internacional ao qual é notavelmente conhecido) junto a outros países da comunidade internacional tal empreitada.

    Quanto a lideranças corruptas, temos larga experiência no trato disto, bem como, guerra irregular urbana.

    Abraços.

  4. Se não estiverem com dinheiro, infelizmente não aceitamos cheque, muito menos cartão de crédito. Porém aceitamos negociar patentes.

    Abs.

  5. ESTAO A BEIRA do declinio raxaduras ja tao bem visives
    mais o povo ainda vai entra em umas com Iran de la em diante a coisa quebra de vez
    sem falar nos titulos que China vem comprando deles a seculos
    quando os Chineses cobrarem e nao poderem imprimir mais din din como agora
    ai coisa vem abaixo de vez. com ela vem um parasita tbm de nome UK United Kingdom
    QUE POR TRAS SEMPRE TIRO PROVEITO DA SITUACAO como um fiel aliado
    nao vejo a hora disso tudo acaba

  6. KLM,

    Eu não vejo problemas em relação ao UK desde que se liberte das amarras financeiras efetuadas pelo poder financeiro norte americano. Os norte americanos nunca perceberam os bretães como verdadeiros irmãos por razões históricas (não superaram o colonialismo, ao contrário de Brasil e Portugal). Vide problema de transferência de tecnologia do F-35, ao qual pasme, são os bretães grandes sócios do projeto.

    Abraços.

  7. No ato de marcarem a data de saída dos seus exército,a natao, já mostra a derrota…pode ficar por lá + 25 anos, os talebans voltaram ao governo…tem-se q negociar com os mesmo um acordo q flexibilize o tratamento as mulheres , + liberdades indivíduais,a melhoria de IDH ; é se possível um estado laíco…antes um bom acordo q uma derrota vergonhosa

  8. Pois, OBAMA está demorando em resolver a maior burrada de todos os tempos que o passado e falido governo BUSH cometeu, e fatalmente vai ser respingado da mesma coisa, se demorar muito em tomar a decisão de retirada. Na mídia, ele já perdeu, a tempo.

  9. Fernando Sinzato :
    KLM,
    Eu não vejo problemas em relação ao UK desde que se liberte das amarras financeiras efetuadas pelo poder financeiro norte americano. Os norte americanos nunca perceberam os bretães como verdadeiros irmãos por razões históricas (não superaram o colonialismo, ao contrário de Brasil e Portugal). Vide problema de transferência de tecnologia do F-35, ao qual pasme, são os bretães grandes sócios do projeto.
    Abraços.

    talves vc nao veja . mais na hestoria contraditoria do Iran se vc for la nais raizes vc vai ver um clasico exemplo da Inglaterra Junto com CIA orquestrando o monopolio da compania BP british petrol. que mais tarde esas influncia levaria a revolucao la naquele pais razao pelo qual o Shah do Iran veio pedi exilio ao
    EUA pra quem ele trabalhava .e outras falcatruas que o com EUA feixo os olhos pra America latina na Guerra das Malvinas pros Inglese cantarem de galo..Agora quando vc diz que eles nao vem UK como nos vemos Portugal nao tiro sua razao
    mais que UK E um forte aliado e a proveitador eu digo que e

  10. “atualmente parece que tudo o que os afegãos desejariam é que todos os estrangeiros desaparecessem do seu território e voltassem para o lugar de onde vieram, mesmo que o custo disso fosse um novo governo taleban”

    Com certeza vão voltar.
    Esses povos são acostumados a viverem sob jugo, há séculos. É da cultura deles. Quem não leu contos de 1001 noites quando criança? Sempre tem um vizir, um sheik, que manda em todo mundo. Não adianta querer implantar a tal democracia ocidental lá. Eles não querem isso. Que sejam felizes na sua cultura, tanto afegãos como iraquianos.
    Quero que os estrangeiros vão embora de onde nunca deveriam ter entrado, desde bush pai.

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