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Terrorismo: o que é isso?

In Opinião, Terrorismo on 24/07/2010 by E.M.Pinto Marcado: ,

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Autor: Hornet para o Plano Brasil

Terrorismo: o que é isso?

No mundo atual, certas palavras são usadas cotidianamente muitas vezes sem se ater aos seus sentidos precisos. Muitas dessas palavras, como por exemplo, imperialismo, soberania, democracia, totalitarismo, liberdade etc. não são meras palavras, são conceitos, definidos historicamente, sociologicamente, filosoficamente. Como o Plano Brasil preza pela qualidade tanto de seus posts como do público que o freqüenta, o intuito aqui é explicar o conceito de terrorismo, uma dessas palavras as quais me referia acima. Uma palavra usada facilmente, mas quase sempre destituída de seus significados mais precisos. Geralmente, o terrorista é sempre o outro. Geralmente, o terrorista nunca tem legitimidade. Ao menos é assim que pensam os que não pensam no conceito, mas apenas usam a palavra como justificativa política de seus próprios atos. É preciso sair do senso comum se quisermos avançar ainda mais nas discussões aqui no Blog.

Neste sentido, vale colocar aqui as definições histórico-conceituais de Terrorismo, muito bem arroladas e definidas pelo Professor Paulo Fagundes Vizentini[1], em seu livro O descompasso entre as nações . O que segue abaixo é um trecho do referido livro do Professor Vizentini (pp.129-131):

Depois do ‘11 de setembro’, a expressão ‘terrorismo’ passou a integrar a linguagem cotidiana em todo o mundo. Contudo trata-se de um termo empregado de forma ampla e inadequada, com fortes conotações políticas. Assim, tem sido objeto de manipulação, para justificar uma nova agenda internacional.

Há pelo menos quatro sentidos para a expressão terrorismo. O primeiro se refere ao terrorismo de Estado, ou ‘terrorismo desde cima’. Trata-se de atos generalizados de violência sistemática praticados por governos contra sua sociedade, contra minorias internas ou contra povos dominados, com o objetivo de quebrar a resistência á sua autoridade e impor determinado projeto. A ‘passivização’ da população foi praticada, mais modernamente, pela Alemanha nazista, pelo stalinismo na URSS e pelos regimes militares latino-americanos. Trata-se de algo polêmico, pois o Estado tende normalmente a usar meios repressivos como parte de suas atribuições. Então, há um limite que é ultrapassado, e a repressão se transforma em terror sistemático.

O segundo, mais famoso e consensual, é a execução de atos violentos, especialmente atentados, contra alvos determinados, muitas vezes fora das fronteiras nacionais. Ocorreu largamente nos anos 1960 e 1970, em geral ligados a problemas europeus ou do Oriente Médio. Essas ações têm objetivos políticos, para chamar a atenção da opinião pública internacional para certos conflitos, ou criar uma situação insustentável para o inimigo. Esses atos costumam ser praticados por organizações clandestinas, mas também por governos, e tiveram lugar na Espanha, Irlanda, Alemanha e Itália, mas especialmente no Oriente Médio, devido ao conflito entre israelenses e palestinos.

Aqui é importante observar que não apenas os grupos clandestinos perpretaram atos terroristas, mas os Estados que os combatiam também. Os atentados palestinos (que incluíam seqüestro de aviões, com reféns) foram respondidos com atentados israelenses, eliminando terroristas, mas também lideranças palestinas. Muitos críticos acusam Israel de praticar uma ‘política terrorista’ nos territórios ocupados, mas isso se referia ao primeiro tipo. Também é comum que se fantasie sobre a existência de uma ‘Internacional terrorista’ vinculando todos os grupos. Mas isso está mais no campo dos romances de espionagem do que na realidade, devido á multiplicidade de interesses e rivalidades existentes entre estes grupos, que muitas vezes estão infiltrados pelos serviços de inteligência de Estados poderosos.

O terceiro tipo de terrorismo é o que produz o maior número de vítimas e destruições: o terrorismo comunal (ou comunitário) das guerras civis ou ‘terrorismo desde baixo’. Foi o caso da África Central, dos conflitos na ex-URSS e, especialmente, na ex-Iuguslávia. Tratam-se de conflitos desordenados, em que a população civil ou suas milícias intervém diretamente contra outras comunidades, em geral minorias étnicas ou religiosas: uma espécie de ‘terror coletivo’, visando a eliminação ou expulsão destas. De certa forma, esse tipo de terrorismo está crescendo no Afeganistão, Paquistão e Índia.

Finalmente, o quarto e último tipo não representa um terrorismo real, mas uma espécie de percepção pânica ou ‘ansiedade global’, como definiu o politólogo britânico Fred Halliday. Trata-se de uma gigantesca orquestração, manipulando o sentido de insegurança das populações, numa época de crise e incertezas. Seu objetivo é criar um consentimento a medidas repressivas que, em essência, implicam perseguição de opositores, simplesmente rotulados de terroristas. Justifica a supressão de direitos civis e o desencadeamento de guerras. Atualmente são estes dois últimos que constituem um grande perigo, o terror coletivo empregado nas guerras civis e o terror virtual, utilizado para provocar um estado de tensão global que justifique certos propósitos políticos por parte de governos.

Assim, pode-se inferir que o que chamamos de ‘terrorismo universal’ (contra o qual se pretendeu lutar, numa cruzada santa, contra o estigmatizado ‘eixo do mal’) se baseia em mitos não comprováveis empiricamente, e por trás deles há invariavelmente questões econômicas e político-militares.



[1] Paulo Fagundes Vizentini é Professor Titular da UFRGS, Professor da London School of Economics e da Leiden University (Holanda), é pesquisador sênior do CNPq.

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12 Respostas to “Terrorismo: o que é isso?”

  1. Essa é uma cena histórica de um ataque dos ianks a uma aldeia Vietnamita com bombas de “Napalman” e essa garota correu nua com o corpo pegando fogo, tinha na época uns 10 anos…ajudou a acabar com a invasão ianks por lá…desmoralizados; ñ deu em nada, a ONU nunca investigou e nem puniu tal barbaridade cometida pela maior “democracia” do Ocidente…de lá pa cá, já ocorreu a invasão do Panamá, a invasão ilegal do Irak; o massacre dos Palestinos pelos SSnioSStras, aliados dos citados. …Agr , a Venezuela.

  2. Muito oportuna Hornt esta sua abordagem.

    Nos últimos tempos as nações assistem perplexas ao aumento quase inacreditável desse tipo de violência que dilacera cidadãos e governos, em nome de causas religiosas, políticas, econômicas, sociais e étnicas.

    O chamado “terrorismo de estado” é algo à parte. Em minha opinião o pior de todos. Pois nesse caso a violência dos governantes em relação à população se estende geralmente durante vários anos, às vezes por décadas, e as vítimas são contadas em — dezenas de milhões.

    Seria talvez, mais apropriado denominar esses acontecimentos de genocídios, ou guerras civis abertas, que invariavelmente são desencadeadas “em nome do estado”, ou “da segurança nacional”, “contra anti-revolucionários”, “contra subversivos” e etc.

    Em todos os casos a motivação é sempre política.

  3. Quando a Democracia e a “liberdade” começam a ser tornar instrumento de persuasão e intimidação, não há mais liberdade no mundo, então tudo começa a se transformar no tal chamado “terrorismo”, em seus altos ou baixos graus. Geralmente, quando em maioria, as grandes nações começam a subjugar e denominar terroristas seus opositores e a agir de forma cada vez mais violente e agressiva, justificada pela sua “liberdade”, a cada vez mais praticar ações extremistas, dignas de verdadeiros ceifadores de vidas, tudo com uma justificativa, que, para ele, é plausivel, a liberdade!

  4. Ainda acreditam no(a) democracia/comunismo/capitalismo/ismo/etcismo ?????

  5. “Trata-se de uma gigantesca orquestração, manipulando o sentido de insegurança das populações, numa época de crise e incertezas”.

    Também conhecida como a Terapia do Choque: http://www.youtube.com/watch?v=Moq8uH_V-84

  6. Konner meu amigo,

    grato pelas palavras.

    abração

  7. Maravilhoso artigo!

    Parabéns ao Hornet e ao Mestre Paulo Fagundes Vizentini.

    Percebem a importância do recurso humano aplicado no conhecimento para o presente século?

    Um grande abraço a todos.

  8. Parabéns Hornet.
    Você é sempre preciso e abrangente. E é isso aí: em qualquer guerra ou conflito, sempre existiu o terrorismo. E acreditem, ou não, até a “paz” é mantida por ele.
    Parece que o ser humano somente respeita os limites quando é persuadido.
    Abra´cos.

  9. O que os “defensores da liberdade” ainda não aprenderam é que sua liberdade termina onde começa a de outrem. Hoje são as guerras do Iraque e Afeganistão; a proibição da burca na Europa; os atritos com o Irã e a Coreia do Norte. O que virá depois? A defesa do meio ambiente, dos recursos naturais?

    Brasil, abra o olho, pois as regras do jogo vivem mudando.

  10. Gostei da relação felita pela imagem da matréria, por sinal muito bel elaborada, que relaciona e ou compara o 11 de setembro a Hiroshima e Nagazaki. Até mesmo para não esquecermos de quem foi a unica nação a realizar ataque nuclear e ressaltar que foi o maior ataque terrorista da historia.

  11. Edu Nicácio :
    O que os “defensores da liberdade” ainda não aprenderam é que sua liberdade termina onde começa a de outrem. Hoje são as guerras do Iraque e Afeganistão; a proibição da burca na Europa; os atritos com o Irã e a Coreia do Norte. O que virá depois? A defesa do meio ambiente, dos recursos naturais?
    Brasil, abra o olho, pois as regras do jogo vivem mudando.

    Se não abrirmos os olhos e enchermos nossos militares de armas e verbas para armas, creio quem em 20 ou 30 anos, podemos dar adeus à Amazônia, pois para eles, nós, os guardiães (para eles) não precisaremos mais “proteger” a Amazônia e eles farão isso por nós.
    Quão bonzinhos são essas potências!

  12. Gente, artigos deste kilatre é que se faz nescessario serem bem mais publicados e exposto a debates, pois nos mostra a verdadeira verdade sobre opiniões que nus tentam empurranos de orelhas a dentro para fazermos entender sempre o que uma pequena parte em especial dos governos de grandes potencia os quais pretendendo usurpar riquesas,em todas as formas de pequenas nações muitas delas, ou na maioria despreparada militarmente, culturamente e acima de tudo financeiramente sendo ataxadas de nações ou paises apoiadores de terrorismo;Sendo que tais grandes potencia, apoiadas pelo que se chama de Organizações das Nações Unidas os endossam a fazer as pequenas. Parabens Hornet belo artigo, tenhas certeza de que muitos que ainda não tinha noção real do que é terrorismo aprendeu o verdadeiro sentido da palavra.

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