Articles

Blog do Editor BBC Brasil: A retirada americana

In Conflitos, Defesa, Geopolítica, História, Opinião on 23/08/2010 by E.M.Pinto Marcado: , , , ,

https://i2.wp.com/blogs.indystar.com/varvelblog/03102007.jpgRogério Simões |

Livros de história talvez apontem o dia 19 de agosto de 2010 como o fim da guerra no Iraque. Ou, pelo menos, de uma delas. A retirada das últimas tropas de combate dos Estados Unidos de território iraquiano põe um ponto final no engajamento de Washington em confrontos armados no país, mas isso é apenas parte da história.

A guerra iniciada em 2003 foi vencida rapidamente, com Bagdá sendo tomada após menos de um mês. Pode-se dizer que em seguida veio um segundo conflito, que misturou insurgência e disputas étnicas. Durou bem mais do que a primeira, um total de sete anos. Os Estados Unidos agora encerram seu envolvimento em combates no país, mas o Iraque segue marcado por atentados suicidas da Al-Qaeda e uma paralisia política. Apenas dois dias antes da retirada final, militantes promoveram mais uma carnificina na capital, com um atentado que deixou 51 mortos. Um alto comandante do Exército do Iraque diz que o país não está preparado para a retirada total das tropas americanas, prevista para o ano que vem (até lá 50 mil soldados continuarão dando treinamento e protegendo interesses dos EUA). O governo americano ensaia dizer que a missão está encerrada, após avanços na redução da violência. Mas não ousa declarar missão cumprida. Para os iraquianos, a paz ainda é um sonho distante.

Os Estados Unidos estão deixando o conflito por vários motivos, entre eles porque sabem que não têm como promover mais avanços significativos. Após gastar quase US$ 1 trilhão ao longo de sete anos, Washington entrega uma nação que ainda não conseguiu formar um governo, cinco meses após as últimas eleições. Atentados suicidas são uma constante, e o Iraque corre o risco de se tornar palco de uma grande disputa por influência, envolvendo o Irã, o fanatismo da Al-Qaeda, grupos iraquianos sunitas e os curdos, que controlam o norte do país. O Iraque está muito longe de ser uma moderna e pacífica democracia, mas a superpotência não se considera capaz de fazer muito mais a respeito.

A retirada das tropas americanas diz muito mais sobre o futuro papel dos Estados Unidos no mundo. Quando podia gastar, o país jogou centenas de bilhões de dólares no Iraque e outas centenas de bilhões no Afeganistão, outra guerra em que enfrenta dificuldades sérias. Mas, após a crise financeira, que quase virou depressão, os americanos mal conseguem manter a recuperação da sua economia. Sua estrutura militar não terá mais recursos, pelo contrário, sofrerá cortes. Se quisessem invadir o Irã para conter o programa nuclear persa, haveria muitas dúvidas sobre suas chances de sucesso. O momento, ao que tudo indica, não é de imperialismo ou interferência militar de Washington em nações mundo afora. É de recuo.

O secretário da Defesa, Robert Gates, promete o início da saída das tropas americanas do Afeganistão para 2011. No Oriente Médio, atores locais, como Irã e Turquia, têm cada vez mais prestígio e influência. A América Latina hoje é muito mais do Brasil e das nações ibéricas do que dos Estados Unidos. Na África, China, Brasil, Índia ganham cada vez mais espaço. No Extremo Oriente a influência americana ainda é grande, com a Coreia do Sul ciente de que precisa de suas tropas para conter a retórica bélica dos comunistas do norte. Mas, na Europa, os Estados Unidos perderam espaço para os russos, que se beneficiam da sua importante posição de exportador de energia. Barack Obama gosta do mundo exterior, onde é admirado por suas ideias e por sua postura multilateral e diplomática. Mas o presidente sabe que o momento é de cuidar das mazelas internas, como a alta taxa de desemprego, os danos ambientais causados pelo vazamento da BP ou a violência na fronteira com o México. A retirada americana vai muito além do Iraque.

Fonte: Blog do Editor BBC Brasil

Anúncios

12 Respostas to “Blog do Editor BBC Brasil: A retirada americana”

  1. Bom,eu sou americano, naturalizado brasileiro, tenho um irmão que morreu no Iraque, em 2003, época da invasão e um primo meu que ficou cego de um olho, no Afeganistão em 2007, e eu servi em 2008, mas não me orgulho disso.
    Acho que o patriotismo fala mais alto na cabeça dos americanos, é isso que faz eles (nós) mantermos as armas na mira.
    Eu tenho vontade de servir de novo o exercito em alguns anos, mas o exercito brasileiro, ir em algum regimento de ajuda no Haiti ou quem sabe Libano ou Sudão.
    Acho que o exercito deveria ser uma forma direta do governo ajudar os povos de nações com problemas.
    Os EUA acabaram com o IRAQUE em 21 dias e pra que?
    Por armas nucleares que nunca existiram?
    Por um ditador que até 15 anos atrás eles mesmos ajudaram?
    Aquela gente mal tem saneamento basico descente, como acham que eles teriam tecnologia e infra estrutura para criar E LANÇAR uma arma nuclear?

    Gostaria que as pessoas não generalizassem os americanos.
    Eu mesmo servi na epoca, achando que ia lá para mudar uma realidade de um pais destruido (por nós mesmos) e por outro eu me alistei pra ir e saber que meu irmão não levou um tiro na testa por nada, lamento estar errado quando a isso.

    Essa guerra já não tem mais lucros, já não é mais viavel, por isso terminou.
    Pode ver o Afeganistão, acharam petroleio lá, os EUA não vou sair de lá até todo o petroleio estar em barris com placas MADE IN USA.

    abraço a todos.

  2. Passa a batata quente para a ONU e os países que não se manifestaram contra a invasão (responsabilidade pelas decisões). O Brasil está fora em princípio (se manifestou contra), até que alguém consiga garantir com credibilidade e recursos tal reconstrução estatal com anuência do povo Iraquiano.

  3. e principalmente PANOS LIMPOS…

  4. responsabilidade pelas decisões + omissões.

  5. Raptor :
    Passa a batata quente para a ONU e os países que não se manifestaram contra a invasão (responsabilidade pelas decisões). O Brasil está fora em princípio (se manifestou contra), até que alguém consiga garantir com credibilidade e recursos tal reconstrução estatal com anuência do povo Iraquiano.

    Bela charge, destruiram um povo, uma geração, criaram os motivos p futuras jihad, intifadas e por aí vai.IMPERIALISMO puro, fizeram guerra a um país desarmado por um longo embargo; são sim, resposnsáveis por futuros atos de respostas tanto dentros do Irak como fora,e só usar de empatia.Eu sempre pgt: Qdo a ONU e seu CS vai prender os responsáveis por esses e mt outros crimes contra o Irak,qdo?

  6. Boas Fernando Augusto:
    Estive a ler atentamente o teu testemunho e realmente é complicada essa situação. Pela perda as minha condolências.
    Acho que deixas uma mensagem muito importante que não se deve generalizar tudo o que é americano, pois há criaturas neste espaço que só por ser EUA… o comentário é tipo “…não presta…” Infelizmente é assim, eu por defender esse mesmo ponto sou logo conectado por ser complacente e pró-americano e passo a vida a explicar que não sou, vejo as coisas de um modo diferente (gosto dos EUA em algumas coisas outras nem por isso, tal como tenho esse sentimento pela Rússia); vejo sempre vários pontos, mas essas mesmas criaturas pensam que estão correctas, mas também faz parte de democracia, pensar o que queremos… por vezes de uma forma errada outras de um modo mais correcta.
    Mas essa minha intervenção tem haver com aspecto que há mais de 2 meses ando a pesquisar e a recolher dados.
    Naturalmente viveste nos EUA, e responde-me sinceramente, qual é o sentimento de um militar americano que estás a combater no Iraque por exemplo, qual é o sentimento de um cidadão? Como vêm essa guerra?
    E porque é que pensam assim…
    Sds

  7. -SAÍDA LA’FRANCESA.

    Com toda certeza,assim que os americanos baixar a guarda no Iraque e deixá-los só,sabem o que vai acontecer?
    A guarda revolucionária iraniana entrará com os dois pés neles ou a turma do Bin Ladem.

  8. Acho que a mudanca dos EUA estao vindo de fatores externos e tambem internos ..a populacao aos poucos estao vendo que essas guerras nao levam a nada…e’ um perde /perde…
    A arrogancia nao leva a lugar nenhum…

  9. E como perderam dinheiro, como acumularam deficit’s e tome de roubo…foi isso q está levando eles a sairem à “A francesa” do Irak, a resistência deveria atacar os mesmo furiosamente, e a hora do troco.

  10. FIM de GUERRA!!
    Todo final de conflito com o exército norte-americano, sobram “ferro bélico”, e aí surgem os Acordos Militares com seus aliados. Cuidado Sr. Ministro da Defesa do Brasil- das FAs- Dr. Jobim, o recebimento destas “ajudas” pode estragar as intenções limpas do governo atual de investir na produção militar dos equipamentos nacionais, os Guaranis, etc.. Luiz o velho Patriota

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: