Articles

Agora dizem que venceram

In Conflitos, Geopolítica, História on 28/08/2010 by konner7 Marcado: , ,

http://rosettasister.files.wordpress.com/2009/01/saddam-statue-190308_20527a.jpgRobert Fisk

Quando se invade um país há que se ter um primeiro soldado – da mesma maneira que um último. O primeiro homem à frente da primeira coluna do exército estadunidense de invasão que chegou à praça Fardous, no centro de Bagdá em 2003 foi o cabo David Breeze do Terceiro Batalhão, Quarto Regimento de Fuzileiros. Por esse motivo, claro que se destacou que não se tratava de um soldado. Os fuzileiros não são soldados. São fuzileiros. Mas ele não falava com sua mãe há dois meses e por isso – igualmente inevitável – lhe ofereci meu telefone de satélite para que ligasse para sua casa no Michigan. Todo jornalista sabe que se consegue uma boa história se empresta o telefone a um soldado na guerra.

“Oi, pessoal”, gritou o cabo Breeze. “Estou em Bagdá. Estou ligando para dizer oi, os amo, estou bem. Eu amo vocês, pessoal. A guerra terminará em poucos dias. Vamos nos ver daqui a pouco”. Sim, todos diziam que a guerra terminaria logo. Não consultaram os iraquianos sobre esse passo agradável. Os primeiros terroristas suicidas – um policial em seu automóvel e depois duas mulheres num automóvel – já tinham atacado os estadunidenses numa grande rodovia que leva a Bagdá. Haveria ainda uma centena de ataques. Haverá mais centenas no Iraque no futuro.

De maneira que não deveríamos nos deixar enganar com as palhaçadas das últimas horas da partida na fronteira com o Kuwait, das últimas tropas de “combate” duas semanas antes do previsto. Tampouco pelo grito infantil “Vencemos!” dos soldados adolescentes, alguns dos quais deviam ter 12 anos quando George W. Bush enviou seu exército para esta catastrófica aventura iraquiana. Deixam atrás 50 mil homens e mulheres – um terço do total da força de ocupação estadunidense – que serão atacados e terão, além disso, de lutar contra a insurgência.

Sim, oficialmente eles tem de treinar homens armados e as milícias, e os mais pobres dos pobres que se uniram ao novo exército iraquiano, cujo próprio comandante não acredita que estejam prontos para defender seu país até 2020. Porém seguramente estarão ocupados – porque seguramente um dos “interesses estadunidenses” deve ser defender sua própria presença – junto aos milhares de mercenários indisciplinados e armados, ocidentais e orientais, que abrem caminho ao redor do Iraque, a tiros, para salvaguardar nossos preciosos diplomatas e empresários ocidentais, de modo que, dizendo com força, não estamos partindo!

Em troca, os milhões de soldados estadunidenses que passaram pelo Iraque trouxeram aos iraquianos uma doença. Do Afeganistão – pelo qual mostraram tanto interesse depois de 2001 como o mostrarão quando começarem a “deixar” o país, no ano que vem – trouxeram a infecção da Al Qaeda.

Trouxeram a enfermidade da guerra civil. Injetaram corrupção em grande escala no Iraque. Estamparam o selo de tortura em Abu Graib – um sucessor válido da mesma prisão sob o vil governo de Saddam -, depois de estampar o selo da tortura em Bagram e em prisões no Afeganistão. Tornaram sectário um país que, apesar da brutalidade e da corrupção de Sadam, até então conseguia manter juntos sunitas e xiitas.

E porque os xiitas invariavelmente governariam essa nova “democracia”, os soldados estadunidenses deram ao Irã a vitória que tanto buscou em vão na terrível guerra de 1980-1988 contra Saddam. Por certo os homens que atacaram a embaixada dos Estados Unidos no Kuwait nos velhos tempos maus – homens que eram aliados dos terroristas suicidas que explodiram a base da Marinha em Beirut, em 1983 -, agora ajudam a governar o Iraque. Os Dawa eram “terroristas”, naqueles tempos. Agora são “democratas”.

É engraçado como nos esquecemos dos 241 homens do serviço estadunidense que morreram na aventura do Líbano. O cabo David Breeze provavelmente tinha dois ou três anos naquele período. Mas a enfermidade continua. O desastre dos Estados Unidos no Iraque infectou a Jordânia com a AlQeda – as bombas no hotel de Amã – e depois novamente o Líbano. A chegada dos homens armados do Fatah al Islam no campo de refugiados palestinos de Nahra-Bared, no norte do Líbano – seus 34 dias com o exército libanês -. e a quantidade de mortes civis foram um resultado direto do levante sunita no Iraque. A AlQeda tinha chegado ao Líbano. Depois do Iraque, sob a ocupação estadunidense, reinfectou o Afeganistão com o terrorismo suicida, o autoimolador que transformou os soldados estadunidenses de homens que lutam em homens que se escondem.

De todas as maneiras, agora estão ocupados reescrevendo a narrativa. Um milhão de iraquianos estão mortos. A Blair eles não importam em nada – não figuram entre os beneficiários de direitos. Tampouco importa a maioria dos soldados estadunidenses. Vieram, viram, perderam. E agora dizem que ganharam. Os árabes, sobrevivendo a seis horas de eletricidade por dia em seu inóspito país, devem esperar que não haja mais vitórias como esta.

Robert Fisk é o correspondente estrangeiro britânico mais premiado.

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: Carta Maior


Anúncios

14 Respostas to “Agora dizem que venceram”

  1. Depleted Uranium: Um dos “legados” norte-americanos para o Iraque.

    Seven years after the invasion of Baghdad, the Iraqi people are experiencing a devastating legacy. Babies are being born with severe deformities and cancer at a rate, which makes the effects of Hiroshima look tame.

    The number of babies born with severe deformities and children developing leukaemia is rising dramatically in parts of Iraq.

    US forces used depleted uranium weapons to attack the city, which locals say has left them with this devastating legacy.

  2. “estadunidenses”
    É impresao minha ou esse termo virou moda agora.
    Moda coisa de fresco!!!

  3. Quando sair os americanos de lá,com certeza haverá guerra civil,um segundo Líbano na região,de um lado a Guarda revolucionária (Irã) e do outro a turma do Bim Ladem.
    Os xás irão provar o mesmo remédio que eles dão ao Israel.

  4. Ponha na cabeça que USA nunca guerra sozinho, sempre apela para seus aliados.
    No Vietinan,dançou,Coreia mesmo com os aliados,não deu em nada.No Afagnistão,mesmo com ajuda dos outros!.. Não sei o que vai dar.

  5. Os EUA …..dez anos depois, um trilhao de dollares (endividados e” claro), dizem que ganharam a guerra..que piada…
    Se isso e’ ganhar..entao eles ganharam na Coreia , no Vietnan tambem…kkkk

  6. Esse video e’ muito bom..Esse tipo de coisa e’ que fara os EUA cairem..
    Com certeza os americanos pensam que sao tao bonzinhos por fazerem hospitais novinhos para tratar das criancas que nascem com deformidades pelas bombas de uranio que os americanos jogaram..
    esse tipo de coisa se espalha no mundo muc,ulmano e com certeza nao levara nada positivo aos EUA…

  7. Sim eles venceram pois estão batendo o record da rapidez de uma debandada…Mamãe eu estou voltando,que saudade do céu da California.

  8. Michel Lineker :
    “estadunidenses”
    É impresao minha ou esse termo virou moda agora.
    Moda coisa de fresco!!!

    Se não me engano esse termo é latino-hispanico

  9. No final de tudo ficarão sozinhos somente com escudeiros mais diretos (UK,Israel e os submissos Canada e Japão)ate mesmo Nova Zelandia,Australia e Europa Ocidental ja se acham relutantes.A menos que consigam o que se evidencia,a união dos 5 do CS em interesses e conveniencias.POLITICA O SEGMENTO MAIS IMUNDO DA SOCIEDADE GLOBAL.Imundice politica não é so previlegio de Brasileiro como muitos pensam.

  10. Qualquer País que apoie uma guerra sem causa ou fundamento está entrando em um mundo de insegurança, é o que acontece com os EUA, eles nunca estarão seguros agindo de tal forma.
    Esses dias estava vendo um programa da netgeotv no Iraque fazendo reportagem de como está à cidade e entrevistou uma mulher iraquiana que tinha acabado de sair do seu casamento e falo para o repórter, você gostaria que o seu País fosse invadido? Bom esse comentário com certeza demostrou à revolta da população! Claro que a cena corta o repórter não falou nada rs

  11. “‘estadunidenses’
    É impresao minha ou esse termo virou moda agora.
    Moda coisa de fresco!!!”

    Não é moda não… É o termo certo a se usar, por três motivos:

    – Quem nasce nos Estados Unidos É estadunidense
    – Norte-americanos também são os canadenses e os mexicanos
    – Americanos somos todos nós, que nascemos no continente americano, do norte do Canadá à Terra do Fogo, extremo sul da Argentina…

    Tem gente que torce o nariz para o termo, mas não concordo em chamá-los de americanos ou norte-americanos pelos motivos acima.

    PS – Não sou contra os EUA nem sou “vermelhuxo”.

  12. Edu ja deslocastes ate o Mexico para America do Norte,isso vai ocorrer mais ainda levara um bom tempo quando acontece o grande terremoto da California rsrsrs Eu sou contra os Estadunidenses e tambem contra os Bolivarianos.Ja vermelhuxos pra mim nem fedem e nem cheirão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: