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Em Angola, Brasil mostra lado ‘agressivo’ de presença na África

In Geopolítica on 08/09/2010 by E.M.Pinto Marcado:

https://i0.wp.com/www.ritchie.com.br/radar_radar/fotos/2009/angola_luanda.jpg

Pablo Uchoa

Enviado especial da BBC Brasil a Angola e Moçambique

Clique aqui  para ver o vídeo

Parceiro tradicional e consistente do Brasil na África, Angola é também o país africano onde a presença brasileira se vê de forma mais clara e, no campo dos negócios, mais agressiva.

Na TV, na rádio, no mercado editorial e em vários aspectos da economia é possível reconhecer a influência das idéias e do dinheiro que chegam do outro lado do Atlântico.

Entretanto, é também em Angola – sétima economia africana e terceiro maior produtor de petróleo do continente – que o Brasil encontra as mais fortes concorrências a essa influência, principalmente da China.

Vista parcial do porto de LuandaBrasil enfrenta concorrência da China no comércio com Angola.

O comércio brasileiro com Angola chegou a US$ 4,2 bilhões em 2008. Porém, a crise econômica e a queda nos preços do petróleo – praticamente único produto que o Brasil compra de Angola – derrubaram esse total para menos de US$ 1,5 bilhão no ano seguinte.

Os números do comércio, entretanto, não são a melhor maneira de medir a presença brasileira no dia-a-dia angolano.

Empregando hoje 12 mil pessoas, a construtora brasileira Odebrecht é hoje a segunda maior empregadora do país, só perdendo para a estatal petroleira angolana, a Sonangol. Em anos de pico, a empresa, que está há 26 anos em Angola, já chegou a empregar 30 mil pessoas.

“Nós permanecemos aqui durante esse tempo todo de guerra, conquistamos a confiança da instituição de governo e conquistamos a confiança da população de Angola. Nossa intervenção teve ganhos para a população, para o governo de Angola e para nós também”, resume o gerente de Relações Institucionais da Odebrecht Angola, Justino Amaro.

Investimento brasileiro

Segundo a Associação de Empresários Brasileiros em Angola (Aebran), os financiamentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para Angola somavam menos de U$ 200 milhões em 2003 – início do governo do presidente Luís Inácio Lula da Silva.

Após oito anos de ênfase na relação com a África o total chega hoje a US$ 3 bilhões, diz o presidente da Aebran, Alberto Esper.

A isso devem somar-se cerca de US$ 500 milhões em benefícios a exportações do Brasil para Angola apenas nos últimos dois anos, nos cálculos do empresário.

Outdoor com propaganda da construtora baiana OdebrechtEmpresa brasileira tem forte presença na indústria da construção civil de Angola.

“É possível vincular um projeto em Angola no qual tudo o que é exportado para cá se beneficia do Proex (o programa brasileiro de incentivo às exportações)”, diz.

Isso quer dizer que obras de empreiteiras brasileiras, como Odebrech e Queiroz Galvão, podem ser encontradas em diversas partes da cidade. Nos supermercados, é fácil encontrar produtos da Sadia, por exemplo. Além disso, há a presença constante de programas de TV brasileiros. As tevês Globo e Record hoje produzem conteúdo localmente.

Concorrência

Muitos analistas veem uma disputa por “corações e almas” angolanos entre Brasil e China. Estima-se que a China já tenha financiado projetos no valor de cerca de US$ 10 bilhões em Angola – hoje o principal fornecedor de petróleo para o país asiático.

Entretanto, Alberto Esper, da Aebran, diz não ver concorrência entre brasileiros e chineses.

“Não achamos que haja competição, porque ainda existe muito espaço para cada um se desenvolver na sua capacidade. Tudo o que o Brasil disponibilizou em termos de recursos foi utilizado. O Brasil não deixa de colocar seus investimentos, seus recursos, seus financiamentos em Angola por causa da presença chinesa ou portuguesa, existe espaço para todos.”

O que faz de Angola um destino atraente para o investimento estrangeiro é o ritmo de sua reconstrução nacional, após as quase quatro décadas em que o país esteve imerso em conflitos.

Desde que alcançou a paz, em 2002, Angola vem crescendo a uma taxa média anual de 13%, sendo que, em anos de pico, a taxa ultrapassou 20%.

Porém, a dependência da economia em relação ao setor petroleiro (que responde por cerca de 80% da receitas do governo) ficou patente durante a crise econômica.

Com a queda do preço da commodity, a taxa de crescimento da economia foi de apenas 2,7% nos cálculos oficiais. Instituições como o FMI e o Banco Mundial estimam que o crescimento foi bem menor, próximo do zero ou até negativo.

Para piorar, a crise econômica global cortou as fontes de financiamento e colocou um freio na promessa do governo de construir um milhão de casas populares até 2012.

Pobreza

A desigualdade mostra sua cara em uma sociedade na qual os 10% mais ricos detêm 44% dos recursos do país e os 10% mais pobres, apenas 0,6%, segundo a ONU.

Metade da população angolana não tem acesso a água própria para consumo e 90% vivem em moradias precárias.

Favela na periferia da capital angolana, LuandaCrescimento econômico de Angola ainda não beneficia menos favorecidos.

Além disso, a guerra empurrou milhões de pessoas para as cidades, e localidades como Luanda, com cerca de 6 milhões de habitantes, sofrem com a superlotação das favelas e engarrafamentos intermináveis, para os quais a pouca infraestrura se mostra inadequada.

“A base econômica deve ser alargada. Deve-se criar uma economia mais popular, entre aspas, mais social de mercado, com uma grande componente social, com uma base alargada de participação das pessoas”, recomenda o economista Justino Pinto de Andrade, um dos economistas mais respeitados do país.

Para o economista, o calcanhar de Aquiles da economia angolana é o que ele chama de falta de “democracia econômica”, fruto, por sua vez, da falha na democracia política do país.

“Quando o governo pensou na ‘angolanização’ da economia, ou seja, em criar grupos econômicos fortes em Angola, em vez de se pensar nos angolanos como um povo, passou a pensar-se nos angolanos com uma bandeira partidária e toda a atenção foi dadas aos angolanos vinculados ao partido no poder”, diz.

Em Angola, a crítica é ao MPLA, partido que domina a cena política há três décadas. Porém, a comparação, para o economista, se mantém com outros países africanos, que deixaram para trás históricos de conflito, mas ainda exibem credenciais democráticas duvidáveis.

Para Justino Pinto de Andrade, a postura brasileira – e da comunidade internacional – pode ajudar a fortalecer um sistema sem sustentabilidade política no futuro.

“O processo político está a ser desenvolvido como se estivesse dentro de uma panela de pressão. No futuro, as transformações que podiam ser democráticas, pacíficas, frutos do desenvolvimento, poderão a certa altura evoluir para transformações violentas, fruto do modo como as forças sociais e políticas estão pressionadas dentro de uma panela de pressão”, diagnostica.

Fonte: BBC Brasil

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9 Respostas to “Em Angola, Brasil mostra lado ‘agressivo’ de presença na África”

  1. CONHECEMOS OS DOIS LADOS DA MOEDA!

    Como brasileiro que sou,espero que o Brasil,não seja mais um que vai a África e faça um papelão,assim como todos que por ali estiveram.
    O governo brasileiro tem o dever moral de não ser aquilo que nós sempre combatemos e detestamos.
    Caso faça,que moral e ética de civilização teremos perante o mundo?
    Creio que há outra maneira de convivermos com os outro,sem exploração.
    Devemos fazer a diferencia,ser a opção e não mais uma.

  2. Se fossemos uma superpotência, pode ter certeza que seríamos mais cruéis. Esse é o preço.

  3. E nós ainda reclamamos do Imperialismo Norte-Americano… é o “sujo falando do mal lavado”. No Brasil Imperial, já havia um certo Imperialismo Brasileiro em outras nações na América Latina. O Brasil foi um dos precursores dessa prática. Hoje, a Ordem é da Maior Potência Mundial.

  4. Não acredito que o texto tenha mostrado uma presença brasileira “imperialista” em angola, mas pelo contrário, uma escalada nos investimentos públicos em infra-estrutura e construção civil, com recursos aplicados também na criação de um parque industrial minimamente competitivo no cenário interno do país e capaz de gerar empregos que melhorem a situação de baixa renda na qual predomina no país.

    Creio, que a “face” apresentada pelos editores e que pelo menos ficou patente para mim, é a do crescimento econômico angolano, mesmo com exclusão social, puxado pela cooperação de políticas em reconstrução nacional promovidas por Brasil e Angola, que tem permitido um quadro de segurança institucional básica, o suficiente para que diversos empreendedores estrangeiros e domésticos surjam com projetos de investimento cada vez mais diversificados, graças ao maior estoque de capital e potencial de produtividade acumulados pelo estado angolano através de uma “agressiva” transferência de recursos e tecnologias para a liberação futura dos obstáculos ao verdadeiro desenvolvimento, quando trará distribuição do progresso e inclusão sócio-econômica.

    Quanto a possível competição com a China, o país tem plataformas de inserção no continente africano muito mais aceleradas e preocupadas com ganhos comerciais e financeiros, uma vez que o rápido crescimento chinês vislumbra também a garantia de fontes seguras para o escoamento de excedentes de capitais e fornecimento de demanda segura para a expansão de suas futuras corporações multinacionais, que estão ganhando o mesmo caráter de verticalização da produção/distribuição, q as filiais do conglomerado industrial Keiretsu japonês apresentava na Ásia do Pacífico.
    Acredito até que a diferença, esteja exatamente aí, nas prioridades dadas às parcerias e modelos de participação dos negócios brasileiros e chineses em Angola.

    É claro, a pergunta a se fazer no final não é aos brasileiros ou aos chineses, mas ao próprio Governo angolano:
    Qual é a estratégia nacional de Estado que nós pretendemos criar?

  5. aspargos :
    Se fossemos uma superpotência, pode ter certeza que seríamos mais cruéis. Esse é o preço.

    lucena :
    CONHECEMOS OS DOIS LADOS DA MOEDA!
    Como brasileiro que sou,espero que o Brasil,não seja mais um que vai a África e faça um papelão,assim como todos que por ali estiveram.
    O governo brasileiro tem o dever moral de não ser aquilo que nós sempre combatemos e detestamos.
    Caso faça,que moral e ética de civilização teremos perante o mundo?
    Creio que há outra maneira de convivermos com os outro,sem exploração.
    Devemos fazer a diferencia,ser a opção e não mais uma.

    Espero q ñ, devemos dar aos outros aquilo q queremos q os outros tbm nós dê, respeito, consideração,afinal temos n pés lá tbm.Eu seria contra uma política assim , martelaria dia e noite contra a mesma, aprendi vendo as covardias de certas potências. Sds.

  6. lucena :
    CONHECEMOS OS DOIS LADOS DA MOEDA!
    Como brasileiro que sou,espero que o Brasil,não seja mais um que vai a África e faça um papelão,assim como todos que por ali estiveram.
    O governo brasileiro tem o dever moral de não ser aquilo que nós sempre combatemos e detestamos.
    Caso faça,que moral e ética de civilização teremos perante o mundo?
    Creio que há outra maneira de convivermos com os outro,sem exploração.
    Devemos fazer a diferencia,ser a opção e não mais uma.

    Bingo!!!

  7. Não no envolvemos diretamente na guerra civil deles,mas indiretamente sim e profundamente.Os armamos,os vestimos,os treinamos e os assessoramos tecnica-logisticamente.São nossos irmãoes e aliados na Africa.Nossos envolvimentos com les vão muito mais alem da cultura e dos negocios.

  8. Os políticos angolanos precisam de muito mais liberdade de expressão; do respeito por todas as diferenças (mesmo discordando ou não); precisam de mais honestidade intelectual, de amar muito mais Angola e o seu povo!!! Caso contrário serão ou ficarão para sempre lembrados na historia deste país como o maior “desastre” que Angola jamais teve na sua politica. Haja muito mais paixão e entendimento politico. Concertação política e social! Os radicalismos só destroem o pais!… Nenhum português ou outro europeu qualquer vai tirar a soberania de Angola ou de um povo. Ridículo!… Passado é passado. Morreu! É como a página de um livro que se girou e nunca mais se voltou a repetir. Há que saber aproveitar todos aqueles investidores bons e honestos, que acabam por ajudar a muitos mais angolanos a serem bem formados e com outras mentalidades para segurar o pais. É impreterivelmente necessário desenvolver Angola, as suas gentes, as suas bases mais humildes; e a dar emprego (+salário) para todos!… Este país precisa urgentemente de bases… Boas bases!… Caso contrario como se formarão bons e suficientemente bem preparados angolanos para o futuro?! Afinal, o que é a globalização?… Sejamos mais inteligentes, bons trabalhadores, com espírito de sacrifício; verdadeiramente abertos para o mundo (sem deixar que ele nos “coma”) e sem jamais nos esquecermos dos nossos… Do interior de Angola! Temos a pretensão muitas vezes de sermos grandes viajantes, conhecer o mundo e até formarmo-nos e quem sabe investir fora do nosso pais… Mas depois somos impossíveis e arrogantes em termos de nacionalismos absurdos e ridículos, no sentido de termos medo que nos venham cá tirar a nossa Angola. O truque é variar o comércio e os investimentos! Jamais colocar tudo nas “mãos” de um só país investidor. Ainda assim não se pode viver como uma ilha no mundo… Nem se vive com tamanha incoerência!… Desconfiados. Se queremos e podemos ir para lá, os outros tem o mesmo direito de nos virem visitar e ate investir justamente neste pais!!! E dos portugueses, acreditem, ainda são dos mais sinceros, honestos e bons trabalhadores que a Europa tem e produz. Pelo meu conhecimento e opinião, acreditem: desconfiem muito mais de qualquer outro europeu… Ou país. E não tanto dos portugueses da actualidade! Tem fama (em todo o mundo) de serem dos mais justos, honestos, humildes e bons trabalhadores; e os melhores investidores. Porém precisam sempre do factor Paz e Estabilidade!!! Luís Mattos (Angolano, sem traumas!…)

  9. Caro Carlos Mattos, o problema dos políticos angolanos é esse mesmo, enchem o peito de orgulho e os bolsos de dólares ou euros. É só retórica barata. O povo nada vê

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