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Iraque, o novo Eldorado de riscos

In Conflitos, Geopolítica, Opinião on 22/09/2010 by konner7

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Patrice Claude

Domingo, 19 de setembro, centro de Bagdá. Nessa manhã, a cidade acordou sob uma fina camada de areia vinda do deserto. Todo ano é a mesma coisa, mas já há algum tempo, devido à falta de água e à desertificação que se amplia no sul, parece que a estação das areias vem começando cada vez mais cedo.

A poeira ocre se infiltra por toda parte, entope as narinas e pinica os olhos. Nesta manhã, atentados sangrentos e tiros de morteiros sobre a “zona verde” mais uma vez abalaram a cidade. 32 mortos e 120 feridos. Um pouco mais que na véspera, talvez menos que amanhã.

Em Washington, Barack Obama decretou, no fim de agosto, que a guerra, ou pelo menos a sua, havia terminado. Isso fez rirem, e às vezes chorarem (de raiva), alguns dos 50 mil soldados que ainda participam todos os dias dos combates “antiterroristas” que continuam alegremente a acontecer no país. 426 mortos e 838 feridos iraquianos, em agosto. Um pouco menos que os 535 mortos, dentre os quais 400 civis, registrados em julho – o mês mais mortífero em um ano. Boris Boillon, embaixador da França, pode até ter afirmado (no dia 30 de agosto ao “Figaro”) que é “mentira que a segurança está se deteriorando”, cada um aqui conhece a realidade. “Para nós”, resmunga Bassam, sentado perto de nós, “sob sua direção, o cardápio é sempre o mesmo: sangue, suor e lágrimas”.

Na avenida Al-Saadoune, os comerciantes de frutas e legumes cobriram suas barracas com lonas gastas. Esta noite, se isso continuar, os restaurantes, as casas de câmbio, as lojas de brinquedos, de roupas e até de eletrodomésticos, os novos-ricos do “novo Iraque”, fecharão suas portas mais cedo. Bagdá sofre, Bagdá se reconstrói um pouco, mas Bagdá continua feia, perigosa e assassina.

A cidade se asfixia nas emanações de dióxido de carbono cuspido pelos milhares de veículos espremidos nos colossais engarrafamentos. Faz 40 graus à sombra e nada de umidade no ar. Três semanas atrás, eram 50 graus. Um forno. Ao longo das ruas, por centenas de quilômetros, horríveis muralhas de concreto antibombas, homens armados e de capacetes que filtram a circulação com 350 barragens, recolocam seus lenços e óculos escuros.

Passando a praça Firdous, na altura da Rua 55 desse bairro de Abou Nawas, que já foi chique e próspero, finalmente deixamos o inferno dos homens de máscara e das mulheres de véu. Um último posto fronteiriço para atravessar e eis o “paraíso francês”, ironiza nosso motorista. Paraíso, não sei, mas certamente um oásis de ar condicionado, bebidas coloridas e apetitosas refeições. “Bem-vindo ao castelo!”, diz Pierre Bouchez, o dono do lugar. Não é preciso exagerar. O “castelo”, assim chamado por seus hóspedes de passagem, não é nada além de um pequeno imóvel de dois andares reformado, logo em frente à embaixada da França.

Bloqueados em suas extremidades por guardas atentos, muralhas antibombas e mirantes, os 500 metros da Rua 55 passam a figurar entre os mais seguros da cidade. “É, até que se leve uma chuva de projéteis na cara”, diz um jovem policial bretão. Justamente, três semanas atrás, a embaixada recebeu um alerta, o segundo em três meses: a Al-Qaeda no Iraque, que sempre reivindica a maioria dos atentados, teria a intenção de atacar os “Frannçiyines”, como se diz aqui. Verdadeiro, falso? Vai saber. De qualquer forma, a segurança foi reforçada, o GIGN [força especial da polícia] e os pelotões da gendarmaria móvel que protegem a embaixada e comandam o sistema estão em alerta.

Na sala de comando do “castelo”, os monitores das câmeras que gravam continuamente os arredores são observados noite e dia. Uma fortaleza? Certamente. Mas o caso dos sequestros no Níger mostra que, para fazer negócios nos países instáveis, prudência nunca é demais. “Só faltava um de nossos hóspedes ser morto”, resmunga um segurança particular iraquiano. “Não, sinceramente, nós nos sentimos muito seguros aqui”, conta um dos hóspedes. Thierry Mori, diretor da Sofinfra, empresa francesa do setor de construção civil especializada em hospitais, quarteis e hotéis, está em sua quarta viagem. Antes da abertura, no dia 1º de maio, do Centro Francês de Negócios (o verdadeiro nome do ‘castelo’ e de suas dependências), ele conheceu alguns grandes hotéis da cidade. Ele se sente melhor aqui. De qualquer forma, os seis hotéis “de luxo” de Bagdá estão fechados para reforma. O governo quer que eles estejam prontos para uma possível cúpula árabe, em março de 2011.

Organizado e administrado pela Agência do Desenvolvimento da Informação Tecnológica (ADIT), órgão do Estado, o centro oferece aos empresários franceses aquilo que Mori chama de “uma base logística ideal” para conquistar o amplo mercado da reconstrução no Iraque. O bolo está avaliado em US$ 600 bilhões (R$ 1,03 trilhão).

Os franceses, que ainda são desprezados aqui porque demoraram para se interessar – comparados com os americanos, é claro, mas também com os alemães ou os italianos – , querem sua parte. Os iraquianos “publicam entre 40 e 60 licitações a cada dia”, se empolga Jean-Pierre Vuillerme, presidente do centro.

O problema é que os anúncios muitas vezes são feitos em árabe e é preciso agir rápido. “Traduzimos os melhores para o inglês ou francês e os colocamos em nosso website”, explica seu diretor, Pierre Bouchez, um veterano dos “serviços”. Por 2 mil euros ao ano, os assinantes da ADIT recebem tudo aquilo que diz respeito ao seu ramo de atividade. Por 100 a 200 euros ao dia, dependendo do espaço necessário, o centro oferece hospedagem, alimentação e piscina aos empresários de passagem. E escritórios, em regime anual (70 mil euros ou R$ 159 mil) para aqueles que querem se instalar ali e ter os serviços de tradução e todas as facilidades da embaixada logo em frente.

Por enquanto, há oito hóspedes permanentes, entre os quais a Lafarge, a Technip, a Sanofi, a Aventis e a Alstom. “A vantagem desse ‘hotel de segurança reforçada’,”, ressalta Mori, “é que estamos no centro da cidade e podemos facilmente sair para as reuniões”. Ainda não é recomendável se aventurar sem precaução na “zona vermelha”, como dizem os americanos, que sempre acampam em sua imensa embaixada da “zona verde”.

Além dos atentados, que continuam sendo quase diários, as gangues, criminosas ou “políticas,” especializadas em sequestros ou assaltos a bancos, joalherias e empresários, continuam sendo muitas. E perigosas. Se não há pagamento, eles matam sem hesitar. “Há tantos sequestros”, observa uma fonte local, “que nossos jornais nem falam mais disso”.

Fonte: Uol

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3 Respostas to “Iraque, o novo Eldorado de riscos”

  1. É a guerra da $$$…

  2. Culpa dos mesmo, os ianks, agr, pq oa irakianos estão demorando p pedir indenizações de guerra ,e punições aos criminosos ianks , a ONU ?

  3. Engrac,ado 600 bilhoes para reconstruir o Iraque..
    Boa ideia e’ so destruir primeiro para construir depois nunca vai faltar oportunidades de negocios…

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