Articles

Canoagem ‘Radical’

 

 

Por: Cel Hiram Reis e Silva

Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA)

Acadêmico da Academia de História Militar Terrestre do Brasil (AHIMTB)

Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS)

Site: http://www.amazoniaenossaselva.com.br

Canoagem ‘Radical’

Por Hiram Reis e Silva, Porto Alegre, RS, 20 de Novembro de 2009.

“Nos últimos cimos dos montes erguidos,

Já silva, já ruge do vento o pegão;

Estorcem-se os leques dos verdes palmares,

Volteiam, rebramam, doudejam nos ares,

Até que lascados baqueiam no chão”.

(A tempestade – Gonçalves Dias)

– Treinamento para Travessia da ‘Lagoa dos Patos’

Continuamos com os treinamentos para a Descida do Rio Negro. O ‘encerramento’ desta vez será a ‘Travessia da Lagoa dos Patos’, com saída na ‘Praia da Pedreira’, madrugada de 25 de Novembro, Parque Itapoã, e chegada, prevista, em Rio Grande no dia 1° de Dezembro.

Ontem a previsão de mau tempo me forçou a navegar costeando a margem esquerda do Guaíba até a frente Sul da ‘Ponta Grossa’. Os fortes ventos de popa na ida e, por incrível que pareça, na volta favoreceram bastante o deslocamento. Acostumado a remar longe das águas de Ipanema e da Vila dos Sargentos, havia esquecido da poluição que infesta aquelas áreas. Às vezes tenho de concordar com os ‘Talibãs Verdes’ de que o homem está se tornando um vírus letal para a Mãe Terra.

Hoje, dia da Bandeira, resolvi, contrariando o bom senso, atravessar o Guaíba rumo ao Parque Fazenda Itaponã, meu idílico refúgio. É verdade que o tempo estava perfeito não fosse um pouco de neblina na linha do horizonte. Visitei meu velho amigo, Sr. Américo, e fui passear pelo campo admirando a floração das palmas. Os insetos polinizadores disputavam freneticamente cada flor.

– Abençoados ‘Teiús’

Ao retornar ao cais, onde havia deixado o caiaque, fui surpreendido com a visão de um enorme ‘teiú’ que ziguezagueava pelo campo procurando ovos de quelônios.

Teiú (Tupinambis merianae): cabeça comprida e mandíbula e maxilar fortes, repletos de pequenos dentes pontiagudos. A língua é cor-de-rosa comprida e bífida. A cauda é longa e arredondada. O dorso apresenta barras negras transversais que se alternam com faixas transversais mais claras, com pontos negros e cinzas. A região ventral é clara, com barras negras transversais irregulares. Maior lagarto do continente, atingindo até um metro e vinte centímetros de comprimento. A cauda chega a medir 60 centímetros. Alimentação: variada, incluindo moluscos e artrópodes, vegetais, frutas, ovos, roedores, aves e anfíbios. Fonte parcial: Guia Ilustrado de Animais do Cerrado de Minas Gerais. CEMIG. Editare Editora – 2003.

A língua cor-de-rosa se movimentava sofregamente tentando localizar sua presa. De repente o réptil estancou e, depois de alguns giros sobre o mesmo lugar, iniciou a escavação. O primeiro ovo apareceu logo em seguida e foi de pronto devorado. Quando estava para devorar o quinto ovo, apareceu, não sei de onde, um lagarto bem maior que o primeiro. Alguns giros e demonstrações de hostilidade fizeram o primeiro abandonar o tesouro recém-descoberto. Não sei se por estar saciado ou acovardado perante tamanho adversário. O segundo lagarto continuou a escavação e só se retirou após devorar os oito ovos restantes.

– A Tormenta

O leitor deve estar se perguntando onde está o ‘Radical’ de tudo isso. Às 12h20min iniciei minha viagem de retorno, rumo Nordeste. Após remar vinte minutos alguma coisa ou alguém me fez olhar para o Sul. Um enorme, belo, sinistro e arroxeado cogumelo de tempestade, com belas franjas verticais de brancas nuvens, limitado a Este pelo Farol de Itapoã e a perder de vista a Oeste, surgiu do nada. Resolvi picar a voga achando que seria possível chegar antes dele ao meu destino – a Raia 1, na Pedra Redonda. Pouco depois me virei novamente e o limite Este já era a Ilha do Chico Manoel, a tempestade percorrera 30 quilômetros em menos de vinte minutos. Resolvi aportar na margem direita até que a tempestade passasse, afinal estava a apenas 400 metros de distância e levaria uns cinco minutos para chegar até lá.

Quando alterei o rumo, uma visão cinematográfica: a superfície da água, varrida pelos fortes ventos, formava uma cortina branca de uns dez metros de altura e célere se aproximava. A forte rajada quase me arranca o remo das mãos. Tentei alinhar a proa com o vento usando o leme e remando vigorosamente sem conseguir sucesso. Os ventos de 110 Km/h tentavam assumir o comando de meu caiaque, mas, depois de quinze minutos de muito esforço, consegui acostar e navegar por entre os juncos, próximo à margem, refugiado, até achar uma pequena casa de pescador na Ponta da Figueira.

O dono da casa, o Sr. Inácio, e seu amigo, o Sr. Áureo, gentilmente me convidaram para entrar e ficamos contando estórias de pescador até o tempo melhorar um pouco. Às duas da tarde, cessada a ventania, me despedi dos novos amigos.

– O inigualável ‘Cabo Horn’

No Rio Purus o caiaque duplo, pilotado pelo meu parceiro, estava sendo rebocado por uma embarcação a motor e sofreu sérias avarias. Eu já havia testado o caiaque no Guaíba em circunstâncias similares e o mesmo havia saído incólume do teste. Naquela oportunidade, bastante contrariado, com a possibilidade de nenhum de meus companheiros de viagem conseguir concluir a totalidade do percurso, escrevi um artigo me referindo ao caíque como ‘Frágil’. Hoje, conhecendo todos os fatos, quero me penitenciar junto ao amigo Fábio Paiva, da Opium, fabricante dessa formidável embarcação.

Meu parceiro confessou, em Porto Alegre, enquanto aguardávamos uma entrevista com o jornalista Milton Cardoso da Bandeirantes, que, por diversas vezes, ‘esticava as pernas’ de pé dentro do caiaque, evidentemente forçando a estrutura justamente no ponto que mais tarde veio a cisalhar. Sentava no convés, nos locais de parada, carregava o caiaque antes de colocá-lo n’água e, nas aulas que se permitia dar aos filhos dos ribeirinhos, as crianças não tinham o devido cuidado com as embarcações. Como nas provas de equitação, o canoísta e caiaque formam um conjunto harmonioso e perfeito, desde que se respeitem as características de cada um. Já naveguei 15.500 km com o fantástico ‘Cabo Horn’ da Opium e posso dizer que não o trocaria por nenhum outro da sua categoria. A sua estabilidade enfrentando vento de 110 Km/h demonstram, sem sombra de dúvida, sua qualidade inigualável.


Coronel de Engenharia Hiram Reis e Silva

Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA)

Acadêmico da Academia de História Militar Terrestre do Brasil (AHIMTB)

Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS)

Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional

Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS)

Site: http://www.amazoniaenossaselva.com.br

E-mail: hiramrs@terra.com.br

NOTA DO BLOG: Os artigos publicados na seção Amazônia Nossa Selva não necessariamente reflentem a opinão do Blog PLANO BRASIL, simplesmente por se tratarem de textos de autoria e responsabildades do autor.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: